Para entender a falta d’água

Celso Vernizzi (*)

O desabastecimento de água com o qual convivemos nos últimos dias em alguns locais de nossa região não pode ser atribuído à falta de produção pela Sabesp. Além do calor elevado, muito acima das médias normais da época, por vários dias seguidos, o que tem motivado um consumo bem maior da população e de milhares de visitantes que recebemos, outros fatores devem ser considerados e merecem uma atenção especial.

Os sistemas de abastecimento das cidades do litoral estão bem dimensionados, há produção suficiente, porém é quase impossível se manter a distribuição plena 24 horas por dia quando se conjuga temperaturas com sensação térmica acima dos 40 graus, o alto consumo e um problema crônico desses períodos de temporada e feriados prolongados: a ocupação exagerada de casas e apartamentos.

É comum observarmos uma ocupação dos imóveis nesta época com um número de pessoas de até três ou quatro vezes maior do aquele para o qual foram planejados. Os reservatórios de várias casas e edifícios não tem a capacidade de reservar tanta água quanto à necessária para tanta gente. Isso acaba provocando uma perda substancial de pressão nas redes, a água escasseia e compromete boa parte de um sistema de abastecimento por melhor que ele seja. Agrava a situação a possibilidade de uma pane ou falta de energia nas estações de bombeamento em momentos iguais a este, fato que pode comprometer a distribuição, principalmente para os imóveis que não tem a possibilidade de armazenar a quantidade de água adequada ou estão mais altos ou distantes, quase sempre nas periferias.

Não devemos atribuir falta de planejamento a Sabesp. A empresa tem investido bastante em melhorias para o abastecimento de água no litoral paulista. É preciso uma discussão bem ampla dessa questão envolvendo as Prefeituras e outras entidades como o CRECI – Conselho Regional de Corretores de Imóveis, Associação dos Engenheiros e possivelmente o Ministério Público. Um estudo aprofundado que resulte em soluções que venham a compatibilizar o acolhimento de milhares de pessoas que procuram nossas cidades nestas épocas com um mínimo de regras que possam disciplinar a ocupação dos imóveis.

Por maior que seja a produção de água, será difícil um sistema de distribuição que atenda a todos sem problemas com as circunstâncias que convivemos atualmente. Todos têm o direito de aproveitar aquilo que nossas cidades oferecem, mas é necessário que se tenha condições de receber a todos com dignidade e em condições que assegurem uma qualidade de vida saudável.

Conheço bem a Sabesp. Trabalhei na empresa muitos anos e sei da sua qualidade e competência, inigualável no Brasil e reconhecida internacionalmente. Não devemos atribuir exclusivamente a ela a solução de um problema que envolve necessariamente a participação de outros atores.

É necessário também continuar reforçando sempre as campanhas de conscientização do uso racional da água.

(*) Celso Vernizzi é Jornalista. Foi Assessor de Imprensa e Superintendente de Comunicação da Sabesp, e atualmente é o Diretor de Jornalismo da Prefeitura Municipal de Peruíbe. Artigo publicado originalmente na coluna TRIBUNA LIVRE de A Tribuna, em 07/01/2020.

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