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Encontro de Tropeiros tem homenagem também para o Borges, “O Rei do Forró”, de Prados

Prefeito Juninho do Lester se emociona ao falar dos tropeiros mais ilustres do município

Borges, sempre elegante (de calça branca), à esq., recebendo os cumprimentos dos presentes a mais esta edição de Encontro de Tropeiros de Prados

Da Redação

Em dia carregado de emoção e lágrimas, o prefeito Juninho do Lester mais uma vez faz questão de lembrar que a festa que reúne tropeiros antigos e mais novos de Prados só existe por conta dos personagens que dedicaram suas vidas, de corpo e alma, para eternizar a centenária tradição de montaria que tanto orgulho traz ao povo pradense.

Ele próprio – o prefeito – um tropeiro, sabe a emoção e o orgulho de ser reconhecido como tal. Afinal, nascido com o destino de carregar para sempre a terra do solo de Prados por entre os frisos de suas botinas, e de empunhar o ferrão com que conduz um carro de boi com a mesma destreza com que segura o arreio que põe o cavalo em marcha e, agora, a caneta com que administra os destinos da cidade que tanto ama, Juninho não esquece jamais suas origens, e as origens dos destemidos tropeiros que fizeram brotar da Campo das Vertentes das Minas Gerais, a pitoresca Prados.

E, mesmo sendo simples e até tímido quando se depara com um microfone, é nos momentos de encontro como este que reúne dos tropeiros de Prados que Juninho encontra forças para derramar sua alma para lembrar os amigos, tanto os que já se foram, como os que ainda permanecem como testemunhas vivas da história de Prados, como é o caso de Borges, um amigo, tal e qual o saudoso Didiu, que recebeu da parte do prefeito a homenagem da lembrança mais que merecida.

“Vida de um mineiro”

O prefeito Juninho não conseguiu conter as lágrimas as lembrar do ex-vereador Juscelino Paulino Neto (Didiu), falecido em 2015, “um desbravador que, com sua visão futurista, uniu o caminho de Prados ao Pinheiro Chagas” (veja aqui).

Outro homenageado de mais este “Encontro de Tropeiros” que aconteceu em meio ao XV Encontro do Pradense Ausente 2019”, foi Borges, mais que conhecido e querido da comunidade pradense.

Um bonito histórico, escrito na primeira pessoa, como se o próprio Borges estivesse declamando, foi lido pelo prefeito Juninho do Lester. Borges, que se manteve o tempo todo ao lado do prefeito, foi saudado e cumprimentado pelos presentes à festa que foram unânimes em concordar que a homenagem foi mais que merecida.

A seguir, a íntegra do texto que resume um pouco da vida de Borges:

Nasci Sebastião Silva, em uma casinha de capim, com portas de esteira de bananeira, aos 18 de março do ano de 1925, no Tejuco, município de Carandaí, Minas Gerais.

A origem de meu apelido, Borges, devo a meu tio Benedito, irmão de minha mãe, que sabia de uma mulher, sua conhecida, Sinhana Borges. Então, no meu nascimento, ele me vendo, disse, arranhando a garganta:

“Esse é o Borges, por aí sempre, sempre famoso”

E, como sempre, o bonito Borges!

À medida que fui crescendo e embalando meus sonhos pueris, já fui me conscientizando de que a parada dali em diante não seria fácil. A pobreza e a miséria eram companheiras assíduas em todos os nossos momentos.

Entrei na escola aos 7 anos. Muita dificuldade financeira. Faltava o básico para continuar estudando.

Aos 14 anos comecei minha saga de trabalhos em fazendas, pegando no cabo da enxada.

Fui candeeiro de boi. Fiz de tudo um pouco para ajudar meus pais e meus irmãos. Até que um dia, trabalhando de fazenda em fazenda, um destes tomadores de conta da fazenda, tomou-se de simpatia por mim, e, com a permissão de meu pai, Joaquim Campalegre, apesar de contrariado, permitiu que me levassem para ajudar na lida do dia a dia na fazenda da Cachoerinha, por onde fiquei por muito tempo.

Nessas andanças de trabalho, também bebia e fazia muitas farras, onde tratei vários casamentos, e nunca cumpria, pois gosto de dizer: fui namorador, conquistador e eternamente um homem apaixonado pelas mulheres. Sempre galanteador. Um rapaz arrumado, como dizia na época, bonito, moreno, cabelos anelados, boca com bastante ouro.

Imponente e boa pinta, beberrão, não enjeitava uma briga, caso fosse preciso. Gostava e ainda gosto de uma faca afiada e ponta fina.

Homem de vergonha na cara, por ocasião de uma embriaguez, fui levado ao delegado para ser preso, mas ele sabendo de minha conduta, e que não passava de uma farra, me soltou. Mas confesso que não me orgulho deste fato. Até que numa dessas resolvi abandonar a farra e voltar para a casa de meus pais, como o filho pródigo, e parei de beber. Permaneci na casa de meu pai por algum tempo, trabalhando na roça, pois eu encarava uma enxada de 3 libras sem titubear, Borges era parada dura!

Entre ilusões, desilusões, perdas e ganhos, segui em frente, recomeçando as andanças nas fazendas da região, com a fama de bom enxadeiro que era. Até que surgiu a oportunidade de uma viagem como TROPEIRO, a primeira, para o Sul de Minas, São Tomé das Letras, da qual guardo fortes lembranças, inclusive de Leontina Rita de Jesus, mulata bonita e alta! Ah, as mulheres, sempre fazendo parte de minhas histórias… Apaixonei-me pela cidade e suas lindas pedras, que quase davam para escrever o nome de uma pessoa.

Tomei gosto pelas viagens e dali em diante não parei mais. E comecei a viajar por conta própria, vendendo arreios e seus pertences, calçados em geral, comprando em Prados e Dores de Campos, e vira e mexe, daqui, acolá, sempre uma farinha ia junto, NAMORO, vários casamentos tratados, e não cumpridos… Enfim, vida de tropeiro…

Rememorando o passado, me considero um covarde por sempre enganar e subestimar e enganar jovens bonitas que não mereciam meus descasos.

Certa ocasião, em uma destas viagens, arranchados eu e um companheiro em uma coberta às margens do rio Brejaúva, tratamos de preparar nosso jantar e dormir. Veio a velha noite feia e escura, iluminada apenas por uma fraca lamparina a querosene. Pusemos uns couros no chão para dormir, forrados com uns dois baixeiros. Meu companheiro adormeceu imediatamente. Aí foi meu sofrimento. Não conseguia dormir, pois retumbava em minha cabeça mais um casamento tratado do qual eu sabia que não cumpriria, como de fato não cumpri. Cansados dos rolos com mulher, em certa ocasião tratei casamento com Jandira, e desta vez cumpri, claro, em 26 de janeiro de 1955. Abandonei a vida de boêmio e namorador, seguindo sério e fiel. Tivemos muitos filhos e perdemos alguns também. Alguns de forma trágica deixando duras marcas. Cleusa, foi uma filha que perdi com 7 anos, que me deixou arrasado por muito tempo.

Não podia parar com as viagens, e numa dessas, deixei meu filho Cláudio um pouco doente, pois ele tinha uma inflamação nos dedos, coisa simples. Nada que carecesse grande preocupação. E por ali em viagem, fiquei de quatro a cinco dias recebendo o que havia vendido. Numa noite chuvosa, muita lama, recebi um bilhete por um portador que dizia assim: “Compadre Borges, o Cláudio está mal. Espero-lhe aqui em Remédios!” Era meu irmão Mozart que não havia conseguido um carro em Barbacena devido ao temporal. Ele me esperava em Remédios, e um portador conseguiu me localizar na Fazenda Floresta. Deixando a Floresta, me arranquei com meu cunhado Geraldo Barra, o Saracura, que era um “doido”, mas rancão, deixando ali meu irmão Lourival, tomando conta da mercadoria. Em Remédios esperava por mim, meu irmão Mozart e mais dois companheiros, de onde partiríamos para Dores de Campos. Foi quando eu fiz a pergunta: “meu filho está vivo, irmão Mozart”? E a reposta veio dura e cruel, COM LÁGRIMAS NOS OLHOS:

“SEU FILHO JÁ FOI SEPULTADO HÁ MUITO TEMPO”!

Respondi então que nestas alturas não adiantava nada enfrentar aquela noite chuvosa e perigosa.

Passei a noite aos prantos, o mundo havia desabado mais uma vez. Fiquei doente dos nervos e atravessei uma fase dura da vida mais uma vez.

Levantei-me mais uma vez e recomecei, comprando e vendendo cavalos e ganhando a vida honestamente. Como a vida não para, tive muitos dessabores ainda, perdendo minha esposa, mais dois filhos que me despedaçou a alma. Cleudir, mulher simples, de um coração maravilhoso, e meu caçula Cleudimar, tragicamente em um acidente.

Mas como não perco a fé em DEUS, meu criador e meu guia, sigo em frente, tendo amigos por todo canto, muita história para contar, amores, e um grande amor na atualidade, que é meu pilar e não me deixa desmorecer… Mercês.

Um abraço forte deste homem apaixonado, O REI DO FORRÓ!!!

Borges

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