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Wanderlei, ladeado pelos irmãos Wagner (esq.), e Washington

Os 58 anos de Wanderlei de Paula e sua luta pela vida

Imagem relacionadaCaminhando para terminar este dia 6 de junho, não poderia deixá-lo ir sem que antes considerasse um fato que tem marcado a todos da família “de Paula” em Peruíbe, assim como a todos os demais amigos nossos que nos acompanham nestes 52 anos que vivemos em Peruíbe. Sim, digo vivemos, porque eu, embora 650 quilômetros distante, ainda me sinto como se em Peruíbe estivesse, assim como estão todos os demais meus irmãos, fazendo companhia à senhora nossa mãe no auge de seus 82 para 83 anos.

Pois bem. Neste dia 6 de junho nosso irmão Wanderlei comemora seus 58 anos. Terceiro no clã outrora capitaneado pelo nosso pai Luiz de Paula, que este ano marcou 20 anos de ausência física entre nós, e nascido Wanderlei Abrahão de Paula na ainda hoje pequena e bucólica Pariqüera-Açú no ano de 1961, este nosso irmão de outros cinco, e amigo de tantos e muitos, enfrenta hoje uma batalha que ele mesmo sabe, a depender da Medicina, inglória e de vitória pouco provável. Descontamos deste vaticínio o fato de que continuamos acreditando no bom Deus e na sua capacidade de realizar milagres, e creditamos à fé de nossa mãe, através de suas orações, que Wanderlei possa, ao fim, contradizer a Medicina vindo a ser alvo da graça divina.

Seria, assim, este aniversário só mais um dentre os tantos que parecem se acumular no seio de uma família numerosa como a nossa. Afinal, no último dia 3, o caçula William de Paula, marcou seu 51º tento de vida; no dia 4, este que aqui escreve foi contemplado com seu 36º aniversário de casamento com a senhora Neide Toledo de Paula; no próximo dia 1º de julho, será a vez de nossa única irmã, Waldicéia de Paula Marques, receber das mãos da vida sua 53ª rosa; e, por fim, completando este ciclo de outono-inverno, Welyton de Paula entra para a casa sexagenária no dia 14 de julho. Mas, não! Pelo trauma que nos abateu a todos, e pelo drama da empreitada de luta de Wanderlei (e de todos nós, por que não?), não há propriamente o que se comemorar.

Wanderlei está acometido da temida Esclerose Lateral Amiotrófica, tida, nos relatos médico-científicos como a mais cruel das enfermidades, muito mais do que qualquer neoplasia que, como sabemos, se descoberta no início, pode-se em taxas altíssimas até alcançar a cura! A ELA, como é conhecida este tipo de esclerose, já a partir do primeiro sintoma entrega o paciente a um destino fatal. Você que me lê agora, pode até estar estranhando a forma como estou tratando este assunto delicado, e não lhe tiro a razão. Afinal, a morte ainda é tabu de difícil compreensão e aceitação; mas, é dura realidade que nos alcançará a todos, cedo ou tarde, desta ou daquela maneira. Mas, ser alcançado, dentro de uma estatística de 1 dentre 100.000 pessoas, por uma doença rara como essa, para a qual a Ciência e a Medicina ainda não têm explicações sequer sobre suas causas, quando mais para sua cura, e nem mesmo para estancar a celeridade do avanço da doença, é digno de merecer uma nota que faz justa a indignação do paciente em perguntar: “por que eu?”

Sim. Wanderlei já tem se perguntando inúmeras vezes por quê ele, por que justamente ele, que sempre foi o que mais se destacou dentre seus irmãos como homem que começou a trabalhar ainda menino, que fez carreira como bancário, e que foi contemplado pelo sucesso como empresário, que constituiu família, que construiu um patrimônio bem maior que a soma do patrimônio de todos os seus demais irmãos, e que se notabilizou na sociedade como homem bom, sempre pronto a ajudar o próximo. Por que ele, meu Deus?

Aos olhos das pessoas comuns e modernas, já distantes da credulidade para com as coisas espirituais, tal indagação pode parecer pertinente e até pretensiosa no sentido de tentar colocar Deus “em xeque”. Para nós outros, entanto, temos a dura tarefa de encarar o assunto como estando dentro dos planos e da vontade de Deus, e que, por isso mesmo, não deve (ou não deveria) encontrar lugar para as objeções e/ou imprecações, ou mesmo dúvidas quanto ao fato indubitável de que Deus nosso Pai tem um propósito muito definido para luta como essa pela qual todos passamos, e que nosso irmão Wanderlei enfrenta com singular galhardia, galhardia e altivez, coragem e denodo que, aliás, sempre o notabilizou em tudo o que fez ao longo desses agora 58 anos de idade.

Confesso-me dividido. Ainda custo a crer que tenhamos sido atingidos por este raio incomum. E peço que me perdoem e me entendam; afinal, nestes 52 anos em Peruíbe, eu que sou o mais velho dos irmãos, e que este ano faço 62, posso afirmar para os senhores e senhoras, leitores e leitoras, que somos pouco dados com esta coisa de doenças, e, neste período, não experimentamos mais que dois passamentos na família, tendo sido o primeiro e nossa avó materna, quando eu ainda era adolescente, e, depois, 20 anos atrás, de nosso pai. Eis então um bom motivo para manifestarmos gratidão a Deus, mesmo porque manteve-nos Ele afastado de tantas das enfermidades que acometem o homem e a mulher modernos, até enfrentarmos este hiato de agora, com a enfermidade severa do Wanderlei.

Deparo-me vez ou outra com uma e outra pessoa que me confessa que gostaria de visitar o Wanderlei, mas que teme não conter as lágrimas por ver aquele homem forte de ainda alguns meses atrás encolhido numa cadeira de rodas, magro e abatido pela doença. Mas é preciso que eu lembre aqui que toda e qualquer visita dos amigos e companheiros de bola, de música, de boteco, de festas, dos carnavais, faz muitíssimo bem ao Wanderlei. Vão visitá-lo! Verão que, a despeito do revés de saúde, o melhor e mais bonito sorriso da família, e até mesmo algumas gargalhadas (embora bastante limitadas) têm lugar seguro no rosto de Wanderlei. Não temam chorar, porque também ele chora. O choro traz as lágrimas que lava a alma, e a purifica, preparando-a para a difícil tarefa de entender por que tudo isso está acontecendo com o Wanderlei, com toda a família, e, de resto, com todos nós.

Nestes seus 58 anos, Wanderlei, saiba que todos nós seus irmãos e sua mãe que está do seu lado, todos nós o amamos. Cada qual a seu modo, uns mais doces, outros mais rudes, uns mais perto, outros mais distantes, mas não há medida que diferencie o amor que todos nutrimos por você. Creio mesmo que se fosse possível dividir o seu sofrimento em partes iguais, todos nós acolheríamos com muita disposição cada qual a nossa porção, com o fito de vê-lo melhor.

Pedindo vênia ao Apóstolo Paulo, eu termino este lamento com um halo de esperança: “Que diremos, pois, a estas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (cf Rm 8.31). Deus está conosco, Wanderlei. Deus está com você. Hoje, agora e sempre!

Deus o abençoe! Feliz aniversário!

Washington Luiz de Paula

 

 

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