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22 de abril de 2019 – 20 anos sem Luiz de Paula

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Luiz de Paula – N> 13/11/1931 – F> 22/04/1999
Pode parecer piegas esta coisa de ficar, a cada ano que passa, rememorando o passamento de um ente, e mais piegas ainda fica parecendo nestes tempos em que o amor parece ter-se perdido em meio às entranhas das ocupações hodiernas. Mas eu de mim e para mim prefiro seguir a espinhosa trilha daqueles que ainda nutrem um pouco de sentimento, e que, portanto, não fazem parte das miríades de zumbis, escravos das pedagogias que culminaram por criar milhões de analfabetos funcionais Brasil afora, que são aqueles que decantam terem títulos de bacharéis, mestres e doutores, mas que encomendaram suas teses das cartilhas prontas a ensinarem a não pensar.

Eu penso; logo existo!* Porquanto isso não posso lograr esquecer o tempo que o respeito pela vida e a reverência diante da morte eram basilares de uma sociedade que sobreviveu a tudo quanto hoje dizem serem fora de moda. Conheci em Peruíbe um pouco desse tempo ainda. E vim morar em Prados, nas Minas Gerais, que, em que pese ser tricentenária, ainda nutre essa coisa “estranha” de se respeitar os mais velhos, pedindo-lhe a bênção. Curioso é, aos olhos de uma Peruíbe que cresceu muito em tão pouco tempo, e talvez até motivo para chacota, que a reverência pelos mortos e antepassados faz lotar o pitoresco cemitério local a cada final de semana – e há até mesmo quem faça rotina diária a ida ao cemitério cuidar do sepulcro de um ente querido que partiu. Eu mesmo tive a grata satisfação de conhecer pelo menos duas famílias de numerosos irmãos que se revezam diariamente a visitar e a cuidar do túmulo da mãe querida que fisicamente se foi. Eu resumiria assim: Prados tem história; Peruíbe, não! Mas; será?

Veja. Não disserto aqui sobre a condição centenária de Prados comparada ao tempo de apenas seis dezenas de anos de Peruíbe. Ora, se considerarmos que Peruíbe não tem apenas e tão-somente 60 anos, mas sim 484 anos passados desde o primeiro apontamento histórico falando acerca das praias de Tapirema – ou da Aldeia de São João, lá pelos idos de 1535, e, para buscarmos vestígios mais recentes, famílias de caiçaras, como os Caetano, Aquino, Prado, Costa e outras por estas plagas viveram – e alguns ainda vivem – bem mais que os 60 anos da história político-administrativa de Peruíbe, veremos que Peruíbe tem história, sim; o que Peruíbe não tem é memória, e, posto não tê-la, faz perder nos escaninhos mofados do tempo essa sua história tão bela, e não menos rica que as que os contadores mineiros ditam, gerações após gerações, pela antiga mas eficiente tradição oral.

Não dá para esperar mesmo muito mais de Peruíbe. São raros os que a amam de verdade, e vão se perdendo nas gavetas lúgubres da necrópole de Santa Isabel, dia após dia, os poucos que ainda sabem dizer de cor as cores de sua bandeira, os versos de seu hino e o significado de seu brasão das armas. E explicação está na rotatividade dos que vão e dos que se achegam ao município, alguns não ficando mais do que alguns anos apenas. E há os filhos da terra que saem para longe em busca de oportunidade de uma vida mais estável e melhor.

Ora, quem tem paciência de acompanhar meus extensos e enfadonhos escritos ao longo destes 45 anos que tenho por sina o escrever, não diria a história, mas, ao que me parece, o cotidiano de uma sociedade nada organizada, e tão pouco unida, sabe que esta minha queixa é recorrente. E tal como sabe disso os que me distinguem com seu precioso tempo de leitura, sei eu também que malho em ferro frio. Triste pena essa!

O senhor meu pai, Luiz de Paula, era um desses contadores de casos e de “causos”, cuja inexistência tanto se faz sentir em nosso meio. Só mesmo quem já perdeu seu velho pai pode ter a dimensão exata da falta que faz o esteio “naquela mesa”, sentado à cabeceira, promovendo, com mão firme a régia união da família que lamentavelmente, tão logo se foi no tempo, assim também parece teimar se dissipar sua outrora onipresença e consequentemente a concórdia intrafamiliar.

Não quero dissertar aqui sobre o currículo de Luiz de Paula, falecido há exatos 20 anos neste 22 de abril, até porque já está feito em outras postagens deste blogue. Aproveito, porém, este momento de saudade para buscar refletir e fazer refletir sobre o que andamos fazendo com nossas memórias, notadamente com aquelas que estão intimamente ligadas às pessoas que amamos e que já partiram para o outro plano. Posto isso, é preciso que tenhamos consciência de que só é possível manter viva a memória coletiva se mantivermos viva a memória individual.

Neste diapasão a memória coletiva tem a ver com aquelas pessoas que já morreram, mas que contribuíram para o progresso da cidade, ainda que somente em sua restrita área de atuação. A estas geralmente são reservados logradouros que levam seus nomes como para fazer perene a lembrança do que fizeram, do quanto fizeram para o serviço da comunidade, e o que foram no seio da sociedade. E é por isso que acho que vale a pena este registro, não só pelo que Luiz de Paula representou para a família “de Paula”, mas também e sobretudo pelo quanto contribuiu Luiz de Paula – e sua família – nestes 50 e tantos de presença em Peruíbe, dos quais o patriarca só pode participar não mais que 30 anos. E é por isso que emprestou ele seu nome a uma das ruas de Peruíbe, a antiga Rua 3 do Park D’Aville.

Sempre fui muito crítico sobre a falta de critério para a composição dos nomes dos logradouros de Peruíbe. Lamentavelmente os vereadores, aos quais cabe a árdua tarefa de indicar e propor que o prefeito decrete este ou aquele logradouro com este ou aquele nome, costumam fazê-lo por ótica lá não muito técnica, convenhamos. É assim que há rua em Peruíbe que leva nome de natimorto, para citar um exemplo apenas. Deixei de ser ácido, entrementes, após meu velho pai ter sido contemplado com um nome de rua. E, ainda que orgulhoso, confesso um certo incômodo com esta homenagem. Afinal, meu saudoso pai nada mais fez do que a obrigação de ofício, o que fazia sempre com grande denodo e rigorosa honestidade. Acho até que se a homenagem fosse em vida ele não a teria aceitado.

Da mesma sorte nunca concordei com que os nomes como do Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco e General Arthur da Costa e Silva tivessem sido vítimas do ranço político, trocados que foram, o primeiro, pelo nome do comerciante Ambrósio Baldim (praça redonda), e o segundo, pelo do governador Mário Covas (avenida beira mar). Não que os meus também saudosos amigos Ambrósio Baldim e Mário Covas não merecessem a distinção com as quais foram homenageados, mas, a meu modesto ver, pela falta de respeito para com nossa história recente (do qual hoje temos motivo de sobejo para nos orgulharmos).

A questão, entanto, permanece: Quem foi, o que fez por Peruíbe, cada um dos personagens que empresta nome a logradouros, praças, escolas e outros patrimônios imóveis do município? Que medida a Secretaria de Cultura, em conjunto com a Secretaria da Educação tem feito, ou fez, ou fará para que haja registro nos anais da história de Peruíbe, e para que haja ensino que ilustre às crianças em idade escolar a fim de que elas possam ter na história de vida dessas pessoas exemplos para que venham amanhã a se tornarem homens e mulheres melhores? Eu mesmo respondo: nenhuma!

A bem da verdade, se Luiz de Paula, assim como cada um dos nossos entes que se foram, não permanecer vivo nas memórias de seus próprios familiares, não demorará para que amanhã um vereador resolva propor a mudança do nome desta ou daquela rua, desta ou daquela praça, desta ou daquela escola, de um nome “tão antigo” que nem mesmo ele sabe dizer quem foi, para um nome que lhe seja mais familiar, muito a propósito de alguém que tenha em sua família votos preciosos…

Sim, porque se depender dos agentes públicos e daqueles que têm a concessão para o oferecimento da “morada” perenal, os mortos de Peruíbe continuarão recebendo pouco ou nenhum respeito, e não serão mais do que, conforme os versos de nosso poeta maior Dalmar Americano da Costa (outro que quase ninguém hoje sabe quem foi), “pária, entre os párias deste mundo”.

Antigamente, a cada começo de ano, recebíamos das mãos do outrora venerável farmacêutico Enéas Craice, um almanaque produzido, creio, se não me falhe a memória, pela indústria que fabricava o Biotônico Fontoura, cheio de dicas e informações interessantes e com um calendário para o ano mostrando as datas comemorativas, as festas sacras e as cívicas. Não seria muito pensar em formatar ideia semelhante, anual que fosse, onde estas dentre outras informações se fizessem impressas. Assim quem sabe fosse possível explicar por que que o Ginásio de Esportes leva o nome de “Marcos Ensel Wizentier”, e o campo de futebol central, de “Aparecido Ribeiro”.

No tocante ao senhor meu pai, vitimado pelo câncer quando eu tinha 41 anos, o que posso dizer é que ainda hoje choro seu passamento, e poderia mesmo dizer com certeza tácita e firme, parafraseando Marta e Maria ao Senhor Jesus, quando da morte de Lázaro, amigo do Mestre: “Ah, Luiz de Paula, se estivesse aqui ainda hoje, e ainda que do alto de seus 88 anos, tudo teria sido muito diferente. Muito diferente!”.

Não sei se estarei aqui daqui 20 anos para reclamar que se lembrem de meu pai. É bastante certo que a grande maioria dos que o conheceram já tenham também partido, do mesmo modo como já vem de um crescente o número de meus próprios amigos que têm me antecedido na volta à “casa paterna”. Que fique, pois, este registro para a posteridade, a fim de que sentença do amanhã não nos seja tão árdua como seria se escolhêssemos permanecer na ingratidão.

Washington Luiz de Paula

Cogito, ergo sum – René Descartes
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