O lado irônico (e obscuro) dessa história da Lama Negra

Que me perdoem desde logo o trocadilho, mas há um lado negro nesta história presente e corrente destas campanhas tipo “salvem a Lama Negra”. Ou se preferirem aqueles que querem excluir o lápis preto da caixa de lápis de cor de meus netos, vejo claramente (e aqui vai outro “trocandalho do carilho”) que há algo de obscuro neste surto repentino de paixão pelo pelóide tido e havido no fundo do Rio Preto de Peruíbe desde tempos que me lembro bem, mas que são imemoriais para muita gente…

Será mesmo, como querem fazer acreditar os paladinos de hoje da Lama Negra, que o “futuro” de tal minério está mesmo nas mãos do prefeito Luiz Maurício? Eu repondo com um sonoro e retumbante NÃO!

É muito evidente que nem mesmo os autores da petição informal que corre no Avaaz creem que R$ 50.000 seria dinheiro mais que suficiente para “salvar” a Lama Negra, pelo que a petição tem esse condão de solicitar, quase suplicar que o prefeito pague por mais esta dívida que não é dele – nem tão pouco do governo nele, em uma história que se arrasta desde 2015, um ano antes de assumir como prefeito, portanto. Fosse assim, acreditassem mesmo em mais esta versão da história da carochinha, seria muito mais fácil juntar os 500 interessados e assinantes da tal petição e se fizesse com que cada um contribuísse com cem reais para que o quantum restasse amealhado para pagamento dos compromissos do Lamário junto aos competentes órgãos estaduais e federais.

Ora, afinal, se podemos aprender algo com a lição de Kennedy, entenderíamos que é muito melhor perguntamos o que é que nós podemos fazer por nossa cidade, e não o contrário. E R$ 100,00, convenhamos, não haveria de fazer falta para muitos dos participantes de tal movimento sabidamente político-eleitoreiro, vez que há empresários e profissionais liberais dentre estes que, à guisa de exemplo, só por conseguir uma canetada de um juiz para quebrar um flagrante de tráfico de drogas, pode amealhar nessa única canetada, até 50 vezes mais que isso.

A questão é que ninguém quer salvar nada. Ninguém está sequer interessado se a lama é negra ou se é marrom. Muitos sequer “escutaram o cheiro dessa água”, para lembrar o glorioso e quase beato Benedito Marcondes Sodré, quando prefeito, mostrando a água sulfurosa que jorrava de fonte onde o pelóide da lama negra abundava ali pelas bandas do Jardim Veneza ao então governador Laudo Natel.

Evidente que também aqui a regra tem lá sua exceção. E a exceção aqui tem nome: Paulo Flávio de Macedo Gouvêa que resolveu dedicar estes últimos anos de sua vida profissional como médico para desenvolver tese de doutorado em estudos que começaram lá atrás com o termalista e crenólogo Benedictus Mário Mourão, de Poços de Caldas. Por visionário acabou ficando conhecido no meio político de Peruíbe por um epíteto lá não muito gracioso e, convenhamos, imerecido: Paulo Louco.

Por louco, visionário e insistente em suas teses em favor da Lama Negra, o Dr. Paulo Flávio viveu como poucos a agonia da falta de reconhecimento de seu trabalho pelos políticos de antes, e mais ainda pelos de antes-de-ontem. Transformou-se no nosso “passageiro da agonia”, parafraseando Lúcio Flávio, o anti-herói ressuscitado pelo cineasta Hector Babenco décadas atrás.

Então, embora seja de se fazer agora a pergunta que não quer calar, de o por quê Paulo Flávio e outros protagonistas desta campanha hodierna, como Cynthia Calli, ex-diretora de Meio Ambiente do Governo Ana Preto, não emprestavam no governo passado tanto e tamanho vigor a uma campanha pelo “resgate” da Lama Negra, fica evidenciando que se há mérito em quer que seja nesta luta perenal em favor da Lama Negra, este deve estar com o Dr. Paulo Flávio. E c’est fini. O que passa disso é chorumela!

Separemos, no entanto, esta questão político-eleitoreira da efetiva necessidade de se fazer agora e já o que nenhum outro prefeito (ou prefeita) de governos passados fizeram para que seja possível explorar a lama negra como deve explorada, partindo de seus princípios terapêuticos e curativos, deixando apêndices de interesses mesquinhos de todos quantos queiram se aproveitar – diria, se locupletar – desta dádiva divina, deste legado dos céus à nossa cidade. O turismo, por pressuposto, é um destes apêndices. O comércio, outro.

Ora, ninguém aqui vai conseguir me convencer de que o Dr. Paulo Flávio e mais dois ou três auxiliares servindo no Lamário Municipal dariam conta de atender e aplicar o pelóide em caras e corpos de centenas, talvez milhares de pessoas que para cá de repente acorressem atrás deste “milagre” da natureza! Nem Chico Xavier conseguia essa proeza de atender sozinho multidões em busca de seu socorro espiritual! E muito menos o bom-senso nos fará permitir crer que uma “verbinha” seja bastante e suficiente para fazer acorrer turistas milionários do mundo todo para as plagas peruibenses. É ledo esse engano.

Mas, esperem aí! Eu disse “milionários”? Sim, disse e repito: milionários! Turista pobre, que não tem dinheiro para se hospedar na mais simples das pousadas da cidade, ou de comer uma pizza das mais baratas em restaurante local, esse não interessa para ninguém! Deixemos de hipocrisia, meu Deus do céu! Claro que a Lama Negra tem que estar a disposição de todos, indistintamente, mas crer que uma romaria de “farofeiros” em busca de uma aplicação da lama resolveria o problema latente de Peruíbe, que é a falta de incremento ao turismo, ora, vamos e venhamos…

E o turista milionário não viria para Peruíbe. A cidade não tem uma marina onde atracar seu iate, não tem um hotel graduado em estrelas para receber alguém famoso, não tem segurança, enfim, não será Luiz Maurício, convenhamos, com seus quatro anos de governo, que resgatará Peruíbe desse limbo sobre o qual o qual os políticos imediatistas e egoístas das últimas décadas jogaram a cidade e o município.

Seria de grande utilidade até para a formação de uma opinião pública mais equilibrada que o Dr. Paulo Flávio viesse a lume para dizer qual dos prefeitos anteriores com quem trabalhou mais e melhor fez pela Lama Negra de Peruíbe. Mas não só dissesse quem, mas também declinasse o que fez o dito alcaide.

Do que depreendo das atitudes dos políticos todos que acompanho desde 1976, quando debutei na política local, posso dizer, sem medo de errar, e mesmo não sendo sequer preciso perguntar-lhe, que o Dr. Luiz Maurício, atual prefeito, tem na sua mais alta pauta de preocupações uma ação das mais efetivas para dar solução perene a este impasse de décadas. Mas sabe o prefeito – e ele não é irresponsável – que o município por si só não tem condições de gerir e administrar com seriedade este equipamento de saúde pública, da mesma forma que qualquer município deste Brasil afora tem condições, por suas próprias finanças municipais, de administrar um hospital público, por pequeno que seja.

Tenho para mim desde muito tempo que a solução para a Lama Negra é sua entrega, em comodato, para uma indústria farmacêutica, um laboratório multinacional, uma empresa com experiência no ramo de aplicação termal, dentro de fora do Brasil, ou ainda uma grande empresa do ramo hoteleiro, com as exigências e garantia de praxe, a fim de que esta, então, investisse na instalação de um grande complexo que contemplasse a exploração máxima da Lama Negra e de todos os seus benefícios à saúde.

Eu não sou tolo de achar que isso seria fácil. Os primeiros a se movimentarem contra uma entrega da Lama Negra para a iniciativa privada seriam aqueles que se acham detentores de todas as raízes do município, alguns dos quais tendo chegando ontem na cidade, não tendo como servir nem de caule, quanto mais de raiz. Sendo assim, continuamos vivendo numa cidade em que nada se pode fazer: se o prefeito investe em atividades culturais e turísticas, deveria investir no hospital; se investe no hospital, deveria promover entretenimento para a população… Esta é, deveras, a cidade dos descontentes! Só Jesus na causa!

Até que este impasse se desenrole, e ele não há de se desenrolar até outubro pelo menos, sigamos acreditando que este ou aquele deputado que ainda ontem sequer sabia em qual região do estado ficava Peruíbe haverá de, se reeleito, se lembrar que Peruíbe existe e que, dentro dela tem um mar de lama… de Lama Negra, claro!

Washington Luiz de Paula

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