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Violência em Peruíbe? (“Sou da manipulação”)

Não resta dúvida de que a Peruíbe de hoje não é a Peruíbe de 1967, quando aportamos na cidade, eu e minha família. Nem é a Prados de agora (onde moro hoje, nestas Minas Gerais). Muita coisa mudou desde então e, como não poderia ser diferente, também em aspectos e circunstâncias de segurança e… de insegurança. É de se lamentar, mas é a realidade.

Acontece que o município de Peruíbe não está sozinho neste quesito de sofrer com o aumento dos índices de criminalidade, principalmente no que tange àqueles pequenos delitos patrimoniais, como furtos, roubos e assaltos, seja de transeuntes, seja de residências ou de comércio. Nos quatro cantos do país existem cidades que sofrem as consequências de uma política de direitos humanos equivocada, de fabricos de leis que fomenta a criminalidade, ao invés de inibi-la, e de um clima geral de tolerância ao crime organizado que tem forte raiz no tráfico de drogas e na vagabundagem institucionalizada pelo beneplácito assistencialista e paternalista de governos populistas que, por algumas dezenas (ou mesmo centenas) de reais, mantém o cidadão viciado e encabrestado. Sim, o mesmo cidadão que Luiz Gonzaga avisava que uma esmola “ou lhe mata de vergonha, ou vicia o cidadão”, está hoje mesmo é viciado! Viciado e desavergonhado!

Mas este assunto é para um tratado de sociologia. Deixemo-lo para os acadêmicos.

O que interessa aqui, de momento, é esta campanha desta feita encetada pelo “Instituto Sou da Paz”, dando conta de que, das 10 cidades mais violentas do Estado de São Paulo, três estariam no litoral: Peruíbe, Itanhaém e Mongaguá. Curioso, não? Sim; senão curioso, é de nos fazer pensar que o estatístico, ao tabular a pesquisa, não mediu o quão suspeito suas ponderações finais iriam sugerir aos olhos e ouvidos do leitor mais atento e, dentre estes, com muita justeza de razão, a classe comercial e política destas três cidades do litoral sul do Estado.

Pois bem. Eu que costumo pensar antes de engolir qualquer porcaria que me colocam à mesa de minha humilde sapiência, não demorei muito para atentar para esta curiosidade patente na pesquisa, que é de não se mencionar, ainda que un passant, qualquer cidade do litoral norte, ou mesmo, se pensarmos em cidades das que são classificadas como estâncias, nenhuma daqueles do chamado “circuito das águas” situadas no interior do Estado.

Sendo assim, e por ser mais do que certo de que nem Peruíbe, nem Itanhaém, tão pouco a bucólica Mongaguá, espremida entre o mar e as montanhas, seja assim tão “violenta” que mereça tal assento nas pesquisas e, por conseguinte, reverberação na mídia, fica evidenciada a suspeita da manipulação, seja em qualquer etapa da pesquisa em tela, para atender quaisquer interesses os quais, políticos, empresários e comerciantes do litoral sul até que suspeitam quais sejam, mas que, por evidente, não podem fazer outra coisa que protestar pela defesas de suas respectivas divisas.

O prejuízo, entanto, é inexorável. Difícil de calcular. Mais difícil ainda de reverter.

Este tipo de campanha contra o litoral sul não é novidade. Traz-me a lume a memória aqueles momentos complicados dos anos 70 quando se espalhou mundo afora uma suposta epidemia de meningite que, para quem estava de fora, deixava a entender que as pessoas iam caminhando pela rua e de repente caiam mortas, e que carroças de voluntários ajudavam para recolher os mortos que iam se amontando pela cidade. Bem verdade que a epidemia houve e preocupou as autoridades sanitárias que ensejaram por fazer maciça campanha de vacinação. Mas eu estava lá naquele tempo, momento e lugar, e, de registro mesmo de morte pela meningite meningocócica ficou um amigo de minha infância, Betuel Teixeira de Santana, e um ou outro mais, e não mais do que isso. Todavia, a campanha que veicularam sobre os “perigos” de se visitar Peruíbe e cidades vizinhas foi cruel – mais cruel que a doença! – e causou prejuízos de relevo ao comércio, às imobiliárias, e ao turismo em si da cidade.

Mas recentemente tivemos – como ainda temos – o caso da febre amarela, cuja fumaça e poeira levantada pela mídia desinformada (ou mal-intencionada), e pelos governos pouco ou nada preparados para o enfrentamento de situações emergenciais (notadamente no que diz respeito a fazer chegar à população a informação correta e sem desvios, vícios ou interesses no mais das vezes escusos), foi maior que a realidade do problema em si. Novamente dois ou três casos isolados e confirmados da doença, e um óbito registrado, o que, malgrado o lamento pela perda da vida, está anos-luz daquilo que poderia ser preocupação por um suposto ressurgimento da febre amarela urbana, erradicada 80 anos atrás.

Diferente da crise de meningite que atingiu a cidade num momento em que até uma simples ligação telefônica era complicada de se fazer, a “crise” da febre amarela acomete a cidade no auge do admirável mundo novo da internet e das redes sociais que transmitem e retransmitem fatos e boatos a uma velocidade que faria o rastilho de pólvora envergonhar-se por sequer conseguir lugar no pódio desta corrida pela (des)informação.

Interessante notar que enfarto, derrame cerebral e câncer matam hoje muito mais gente em Peruíbe que todas as fantasiosas “epidemias” juntas, e nem por isso, diz-se que Peruíbe é insegura de se viver porque na cidade morre-se destas doenças. Evidente que estas e outras enfermidades graves que dizimam a cada dia pelo menos um de nossos amigos de outrora estão bem longe do controle de qualquer governo que seja. Hoje em dia cada vez mais jovens têm sido vítimas de ataques do coração ou de AVC e de cânceres os mais diversos. E não adianta reclamar pelo hospital, porque todo santo dia morre alguém de alguma doença até mesmo no Sírio Libanês, na Beneficência Portuguesa ou no Albert Einsten. Como sabemos, para morrer basta estar vivo, ou, como lembrou um amigo mais que fatalista: “viver dá câncer!”.

Com efeito, estabeleceu-se o caos pela paranoia reinante que é doença urbana de difícil erradicação, já que as vacinas – que são a educação e a informação correta – nem sempre está à disposição da população e, quando está, tem efeito que podem demorar décadas para começar a aparecer.

É assim – voltando ao assunto principal destas linhas – que é bem mais fácil compartilhar aquilo que não é do que aquilo que é.

Lamentavelmente há interesses inconfessáveis nesta questão de fazer crer que é aquilo que não é. Os chamados “apóstolos do quanto pior, melhor” estão por aí, vagando nas redes sociais, destilando ódios, mentiras e a discórdia; e, ainda que não confessem, é fácil discernir quem são, o que são, o que pretendem e a serviço de quem estão.

Lamentavelmente também não há forças que sejam capazes de fazer dissipar toda essa manipulação de dados e dos fatos.

Há problemas na área da segurança pública em Peruíbe? Há. Estes problemas são preocupantes? São. Esta área nevrálgica da administração pública restou esquecida por governos passados e pouco ou nada se fez para frear seu avanço? Sim. E o atual governo em Peruíbe tem se preocupado em minorar este mal? Sim, também!

Posto isso, é preciso que as pessoas que vivem em Peruíbe, e que sabem que o município não é nem de perto tão “violento” como algumas cidades da grande São Paulo, e outras ainda do interior do Estado (para não falar da Capital), saiam em defesa da cidade. Protestem também! Não deixem somente para que os representantes públicos (prefeito e vereadores) o façam, como se isso não fosse mais que obrigação deles. Mas, sobretudo, se abstenham da paranoia de se imaginar que seja verdade aquilo que um instituto que deveria ter por primazia propagar a paz, antes parece mesmo disposto a disseminar o medo e a insegurança no seio da sociedade.

É preciso que São Paulo e o Brasil ouçam o grito que deve ser ouvido de cada peruibense neste momento, ao dizerem, a uma só voz: Sou da paz!

Washington Luiz de Paula

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