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A cultura das batatas e o ensopado das letras, em ré bemol menor

Padre Marcos fala no final da apresentação do tenor Washington Luiz de Paula (camisa branca), tendo ao lado Celso Vernizzi e o vereador Sussumu
Foi lindo!

Esta talvez tenha sido a manifestação mais sincera do que se pode deduzir do meu recital de ontem, na Paróquia de São João Batista (Igreja Matriz). O panegírico veio de uma pessoa ainda pouco conhecida de mim, ou mesmo quase desconhecida, mas que, por isso mesmo, merece o registro que se faz agora.

Evidente que sei que elogio em boca própria é vitupério. De igual modo fica claro que elogios vindos de minha esposa D. Neide, e de minha irmã Waldicéia e de meu irmão Welyton devem ficar reservados aos suspeitos. Mas o fato é que o meu recital sim atendeu às minhas expectativas pessoais enquanto cantor erudito e sacro, assim como também no que diz respeito aos acompanhamentos, ao piano da professora Regina Galetti, e na flauta transversa do maestro Nelson Gomes, aos quais reitero aqui agradecimentos sinceros por me darem a honra de ilustrarem minha voz, e até cobrirem, com seus talentos musicais, os defeitos que aqui e ali surgiram durante a apresentação.

Mas eu não posso perder nem o pelo e nem o vício. E, consoante isso, aproveito para discutir a ausência de uma política pública de cultura ao menos um pouco mais interessada no que tange às manifestações artísticas daqueles que fazem arte em nossa cidade, seja em que campo for, isto é, seja na música, sejam nas artes plásticas ou cênicas, seja na dança, no cinema, na literatura, e por aí vai. Digo isto porque, ainda que a chuva tenha prejudicado um pouco, você receber uma apresentação de um nível técnico-musical como esse era de se pressupor ter uma dedicação, um empenho um pouco mais acurado dos agentes públicos, notadamente nas áreas de cultura e educação, não tanto de prestígio, que talvez nem o cantor merecesse tanto, mas ao menos de abertura de oportunidade a que os alunos das escolas de músicas e artes da cidade, assim como as crianças e adolescentes e jovens da rede pública municipal de ensino, viessem a conhecer um elemento cultural diferente, que talvez nunca tenham visto, e que talvez nunca terão oportunidade outra para ver.

A mim não me estranha isso. O registro da indignação é apenas para reiterar o que venho dizendo há anos, de que há pouco ou nenhum interesse dos agentes públicos de abrir portas a que as mentes de nossas crianças e jovens consigam enxergar que há muito mais que mistério além das divisas do parco conhecimento que têm dentro das parcas possibilidades que o município oferece como prontas para eles.

Ver, num espaço que caberiam ao menos 300 pessoas sentadas, não mais que 30 pessoas prestigiando meu recital dá aquela sensação a qualquer artista em que se fica perguntando se vale mesmo a pena persistir, continuar, teimar. Mas, muito mais que o público ausente, pude sentir a ausência, então, dos alunos da escola municipal de música, que deveriam ter como elemento curricular a ida a eventos deste nível. E muito mais ainda pude sentir a ausência das autoridades constituídas, ausências essas que refletem o latente descaso com que se trata a disposição de alguém que, como eu, procurou apresentar algo sui generis na cidade, sem que dano algum tivesse dado aos cofres públicos (aliás, muito mais custo teve a própria paróquia que dispôs do espaço, da luz, do som, do pessoal de apoio etc). A próprio diretora de Cultura, professora Cynthia Riggo não se fez presente! Desta minha indignação salvaram-se o vice-prefeito André de Paula (que sigamos lembrando: não é meu parente!), que se fez presente ao lado de sua esposa Márcia Sodré, o diretor de Comunicação Celso Vernizzi (que abriu o evento), e Eduardo Ribas, Secretário de Turismo, Cultura e Esportes, este um tanto suspeito por ser amigo de infância, ou por ter tido oportunidade anterior de conhecer meu potencial vocal, além do vereador Sussumu que trabalha na administração da paróquia.

Não. É mais que certo que ninguém tinha obrigação implícita de ir me ouvir em meu recital. Mais certo ainda que este e aquele – autoridade ou não – haverá de lamentar não ter ido, buscando desculpa em outros compromissos assumidos anteriormente, no esquecimento, ou mesmo da desculpa esfarrapada da chuva que caiu: “ah, começou a chover e eu pensei que iriam cancelar porque achei que era do lado fora…”, ainda que eu tivesse insistido, até com veemência, de que o encontro musical seria DENTRO da igreja!

A questão, portanto – sigo lembrando – não é o fato de ser sido eu, ou de ter sido um evento em que eu era o protagonista, o cantor. Sei das minhas limitações e talvez até mesmo não tenha mais tempo ou oportunidade para alcançar o nível de um Andrea Bocelli, e também nunca tive pretensão de ser melhor que qualquer que seja, seja em qualquer área. O descaso de ontem é só mais um dentre os tantos que a gente tem notícia e conhece, imaginando até mesmo que seja perene, um vício, diria que uma iniquidade cultural que já cauterizou a mente das pessoas, seja no seio do povo, seja em meio aos mandatários, a ponto de eles já pouco ou nada se importarem e até mesmo de não acharem que isso seja tão errado assim.

Passei por experiência semelhante quando trouxe as crianças do Instituto Baccarelli, em seus primórdios, para conhecerem o mar e para se apresentarem – coro e orquestra – na Igreja de São José Operário, no Caraguava, anos atrás. O maestro Sílvio Baccarelli, juntamente com seu pupilo Edilson Venturelli mal começavam seu projeto musical junto às crianças da favela Heliópolis – uma das maiores, senão a maior de São Paulo, mas já davam mostras do sucesso que aquela iniciativa iria resultar, fazendo com que a Orquestra Sinfônica Heliópolis viesse a ser hoje referência no Brasil e no mundo inteiro, já exportando jovens talentos para orquestras importantes nos Estados Unidos, Alemanha e Israel (para citar alguns países apenas), e eu conseguia trazê-los para se apresentarem em Peruíbe. Escolhi a Igreja de São José Operário por acreditar que a população iria se mover a se fazer presente, e, portanto, iria vir a precisar de um espaço grande. E foi grande o meu engano. Algumas dezenas de pessoas foram à apresentação, e, dentre as autoridades, apenas dois vereadores compareceram: Maria Onira Betioli Contel (professora Onira), e Carlos Luiz Rúbio (Carlito Massagista).

No que tange à esta coisa de cultura, e sempre que inquirido a respeito, não me demorava em responder que a única cultura de que nossos agentes públicos entendem é a cultura de batatas. E hoje vejo, com alguma tristeza no coração, que esta realidade sofrida não estava apenas no conceito (ou no preconceito) de políticos do passado, mas que parece teimar em reinar nos políticos de hoje também.

Quem sofre com isso é a própria cultura em si. Ou pelo menos aquela que surge de tentativas públicas um tanto quanto tímidas (muito políticas e nada sociais) de se fazer algo em favor desta importante ferramenta de fomento ao progresso de nossa cidade. O que resulta disso pode-se ver no concerto de natal deste ano da nossa banda, que era algo que vinha seguindo um roteiro de tradicionalidade ano após ano, e que era mesmo esperado no curso do ano com certa ansiedade pelos amantes da boa música. Para quem entende, e para quem conhece, passa a ser dever alertar que a qualidade técnico-musical de nossos jovens instrumentistas vem caindo a níveis alarmantes, e já até mesmo o repertório tem que passar a ser apelativamente popularesco. A começar pelos instrumentos velhos e puídos, não se vê mais tantas crianças com aquele desfile de talentos como outrora se via, e os eternais Maestro Sérgio Luiz da Silva e Maestrina Elizete da Silva têm que se virar como podem para não permitir um encontro entre a banda musical municipal e a orquestra de crianças do Instituto Relfe (por exemplo), para não fazer feio.

Pois bem. Isto posto e registrado como deve ser, e partindo da premissa de que o novel governo comandando pelo jovem prefeito Luiz Maurício tem por mote o resgate da dignidade do povo de Peruíbe, é tempo, portanto, de se perguntar o que é e como é que se pretende agir para que nossos artistas saiam do limbo, do ostracismo, para virem a lume oferecer mais e melhor luz para nossos olhos e ouvidos?

Será que fazendo permanecer velhos conhecidos, com seus evidentes comprometimentos políticos e avidez pelos cargos e pelos salários, em áreas tão nevrálgicas como a cultura e a educação trará alento de que alguma coisa ao menos comece a ser mudado na mentalidade de nossa gente ao longo dos três anos que separam este governo das próximas eleições? Ou será mesmo que, como muitos têm apostado, o prefeito Luiz Maurício decida agora, já no início deste seu segundo ano de seu governo, dar uma guinada de 180 graus em sua equipe, trocando os agentes políticos (sobre os quais tinha compromisso de campanha) por agentes técnicos, estes agora, totalmente descompromissados com a política?

Ainda que entendam por estas letras que eu fiquei despeitado por não ter tido público para meu recital, e por não ter sido prestigiado pelas autoridades, o fato é que – quer creiam ou não – o próprio recital de canto que ofereci ontem na Igreja Matriz, fi-lo não por mim, mas por Peruíbe, por minha cidade! Como dizia o poeta Giógia Júnior: “Que vaidade teria a estrela em seu poder, a flor em seu perfume?” Bem longe da pureza do perfume da flor, ou da majestade de uma estrela, quem esteve ontem na Igreja Matriz pode testemunhar de que algum mérito há sim em minha voz! Mas nem mesmo os colegas da imprensa acorreram para me prestigiar ou registrar o evento! É desanimador, convenhamos.

Não posso terminar este desabafo sem deixar marcado aqui o meu agradecimento ao padre Marco Antonio Rossi e ao vereador Hélio Sussumu por terem aberto da igreja para meu recital. Agradecer também aos colaboradores, a começar pelo prefeito Luiz Maurício, e seguindo com a De Paula Corretora de Seguros, De Paula Topografia, AW Matos/Terraloc/Alex Matos, TV+/Socorro Mendonça, Maranatha Jóias/Diácono Zeca, Peruíbe Suíte Flat Hotel, Pão de Maçã, Pamplona Imóveis e Cheff Grill; e agradecer também à professora Regina Galetti e ao maestro Nelson Gomes que gentilmente me acompanharam ao piano e na flauta respectivamente.

Teremos outro? Não sei. Sinceramente não sei. Este primeiro eu não esperei ser convidado. Corri atrás e consegui realiza-lo. O próximo já não valerá a pena tanto empenho e desgaste meu e de familiares, principalmente de minha esposa. Isto significa que esperarei ser convidado? Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Não ouso pretender tal; mas estarei sempre à disposição. Para isto e para aquilo. Se não haverei de esperar cachês ou louros, ao menos quero garantias de que realmente mudou a mente dos direcionadores da cultura no município. E para melhor!

Washington Luiz de Paula

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