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Carrapicho – O grude desgrudou

A agonia física, biológica, natural, de um corpo por fome, sede ou frio, dura pouco, muito pouco, mas a agonia de uma alma insatisfeita dura toda a vida
Federico Garcia Lorca

Perdi um amigo hoje. Perdemos um amigo hoje. Perdemos Mauro Sérgio de Araújo, o querido por todos Carrapicho. Sim. Por todos! Assim, eis que se vai um homem que conseguia reunir, dentre outros, este predicado singular: o de ser querido pelos que lhe eram amigos, mas também pelos que não tanto.

Ultimamente eu e ele estávamos ali no liame tênue que une a amizade que já foi muito próxima outrora, para aquela que, por conta dos revezes e diferenças no campo das ideologias – notadamente as políticas – nos mantiveram equidistantes. Mesmo assim, o considerava querido amigo. Amigo daqueles que preferia não ver perdendo para a inexorabilidade da morte.

Há os que estão calcinados pela frieza destes tempos hodiernos e podem até dizer, com evidente desprezo que “antes ele que eu”. Eu, contudo, despeitado me revelo para dizer que preferia que fosse antes eu que ele. Ora, se a morte assim é tão líquida e certa, e há de nos arrebatar uma hora ou outra, vejo que melhor seria que ela já tivesse me arrebatado antes mesmo de ter visto meu pai partir, ou de começar a ver como venho vendo há bons pares de anos meus amigos de infância partirem. Não. Recuso-me a ver meus irmãos partirem antes que eu me vá! Mas tenho que entender também que este desígnio não está no plano de minha vontade, muito embora custe também a crer, como mal cristão que sou, que Deus tenha mesmo alguma coisa a ver com essa coisa de morrer, notadamente quando se morre de morte violenta ou provocada por descaso profissional dos cuidadores da saúde, ou mesmo por descuido com a própria saúde…

Sendo assim me parece mais que Carrapicho foi apenas mais uma vítima desta política injusta, cruel, desumana, insana que envolve toda a saúde pública neste país de larápios do dinheiro que deveria ir para os hospitais e que, por mais não terem como justificar tantos e tais desvios, criam uma tal de “regulação de vagas”, que ao mesmo tempo que não regula nada, regula as vagas existentes – porque elas existem! – para apadrinhados e apaniguados daqueles que comandam o status quo.

Com efeito, portanto, não adianta se ter um atendimento competente no pronto socorro, se se tem que esperar horas, e às vezes até dias (como aconteceu com o Carrapicho) até que algum iluminado desgrude a bunda de sua confortável cadeira, desligue o jogo de paciência do computador, para cuidar de prestar assistência àquele que não pode esperar mais um minuto sequer, que dirá dias! (Isso sem contar que, se você chega com alguma emergência em qualquer hospital deste país, você é prontamente atendido e avaliado o grau de emergência, cuidando do devido encaminhamento dentro do próprio hospital).

Sendo assim, recuso-me aceitar que Carrapicho morreu porque chegou sua hora, ou porque essa era a vontade de Deus! Acreditar nisso é o mesmo que dizer que essa casta de bandidos que governa (sic) nosso país, desviando dinheiro que deveria ir para a saúde, não são mais que meros colaboradores de Deus, promotores da vontade de Deus para que este morra hoje, e amanhã morra eu ou você!

Vejam os senhores que esta “homenagem” que deveria estar prestando apenas e tão somente ao dileto Mauro Sérgio Araújo – o Carrapicho, segue o mesmo viés que norteou a vida dele próprio, que foi o da indignação com duas coisas que ele conseguia, como poucos, ver muitíssimo bem: por um lado, a crueldade com que os mandatários do município, do estado e da nação conduzem o destino do povo, se contrapondo, na outra ponta, com a mediocridade desde mesmo povo que sabe pouco escrever ou se expressar, que sabe nada interpretar o que se fala, se escreve e se demonstra, que não lê um livro sequer ao longo de toda a vida, que não quer saber de estudar, que é pouco dado ao trabalho, mas que é muito dado à malandragem.

Como todos os poetas, Carrapicho era um indignado. Sofria o revés de se ver tolhido de mais poder fazer para que o lamentável estado de penúria intelectual que tomou conta do consciente coletivo tivesse ao menos um desvio para que as pessoas, de modo especial os seus próximos, melhorassem um pouquinho que fosse.

A pergunta que faço agora para este instante de transe em que nos despedimos do Carrapicho, é a mesma que um dia quem sabe alguém fará quando eu também me for deste plano: Se todos o tínhamos como amigo, será que ele mesmo considerava que nós outros éramos de fato seus amigos? Deveras, tinha Carrapicho amigos? Pois é, chego a recear que não tivesse tido amigos de verdade, a começar de mim que poderia ter sido mais e melhor amigo dele. E arrisco a dizer que muito mais amigo que todos os seus amigos era o cigarro, que foi seu companheiro de mais de quatro décadas, mas que, também ele – o cigarro – o acabou traindo, a ponto de vitimá-lo à morte.

Carrapicho se vai num momento em que eu e o não menos querido José Antonio Pereira – o Zé Capacete, nos preparávamos para reunir nossa turma de formandos do antigo Colégio (hoje 2º Grau), para um almoço de confraternização em que memoraríamos nossos 40 anos de formatura; e agora já nem sei se levamos à frente este projeto, principalmente depois desde dia de hoje em que Carrapicho foi se encontrar com Luiz Lucas do Santos, Virgílio Dias de Oliveira, Gerti Rose Marie Ubrig, Aparecida Andrade, Luiz Elias Pacheco, e algum outro daquela alegre turma de 1977 que talvez também tenha morrido, cujo fato não tenha me chegado ao conhecimento.

A forma como Carrapicho encarou a vida de veia e alma de poeta, foi a de fazê-la inusitada, incorporando na irreverência com que trajava a barba sempre por aparar a própria poesia que sempre o sustentou. Carrapicho, portanto, era um poeta completo. Mas, e daí? Quem se importa? Você que tem tido paciência de ler meus longos textos, e me que lê agora, conhece alguém que tenha lido uma poesia sequer no curso deste 2017 que termina, ou mesmo de toda vida? Pois é. É muito provável que Carrapicho já tivesse perdido a vontade de escrever, ainda que soubesse que muitas das revoluções que moveram o mundo nos séculos passados começaram por versos de poetas como ele. Diferente dos poetas fabricados nas escolas de Letras, compreendia Carrapicho o que Garcia Lorca outrora escrevera: “A poesia não quer adeptos; quer amantes”. E é justamente neste diapasão que eu e ele nos entendíamos, pelo que ouso afirmar que nossas almas estiveram desde sempre unidas pelos laços dos versos e da prosa.

Por esta união transcendente que invoco agora é que presto esta derradeira homenagem em vida ao estimado Carrapicho, na certeza de que, com a morte dele morreu também um pouco de mim mesmo. Vá em paz! Ainda que eu saiba que não demora para que você seja relegado ao ostracismo das lembranças, saiba você que ao menos para mim você fará falta; muita falta! Falta até mesmo do tempo em que estudamos juntos em todos aqueles bons anos do “ginásio” e do “colégio” (estivemos sentados lado a lado ali no “Kalil” e “Jardim Brasil” desde 1971 até 1977). E não adianta perguntarem: não sei exatamente porque do apelido “Carrapicho”. Posso supor, mas não afirmo. É possível que de tanto amigo, podia ser considerado um “grude” tal e qual um carrapicho agarrando em nossas pernas juvenis. Se assim foi ou era, eis que agora o nosso Carrapicho desgrudou de nossas pernas e calças. Pois que desgrude! Mas que jamais desgrude de nossos corações que hoje está ferido por este espinho a nos espetar a alma.

Termino este tributo lembrando ainda outra vez Federico Garcia Lorca (1898-1936), o revolucionário poeta e dramaturgo espanhol, justamente ele que foi fuzilado em muito por conta de sua verve, em frase que parece resumir o pensamento de Carrapicho: “Como não me preocupei de nascer, não me preocuparei de morrer”.

Que o bom Deus o tenha.

Washington Luiz de Paula

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