sexta-feira , 17 novembro 2017
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Eu, o sexagenário

Comemoro hoje 60 anos. Meio século mais 10 anos que o bom Deus me confere, pelo que tenho que agradecer ao Autor da vida. Não fosse Ele, sequer teria nascido. Não fosse Ele, o milagre do surgimento da vida que tantos hodiernamente tentam violentar assassinando crianças indefesas ainda no ventre da mãe não teria acontecido. Não fosse Ele, o milagre da preservação da vida não teria permanecido em mim, em dias, meses e anos em que grassa a violência gratuita, fútil, despropositada, que tem ceifado tanta gente inocente Brasil e mundo afora.

Por tudo isso, eu agradeço ao meu Deus.

É curioso, entanto, que não me sinta assim entrando na terceira idade. Muito embora seja sedentário convicto, ainda assim sinto a vida fluir dentro de mim como se ainda eu estivesse no auge dos meus 30 anos. E talvez seja por isso que rejeite as benesses de algumas leis segregacionistas implantadas nos últimos anos no Brasil que confere privilégios a “velhos”, exatamente porque não me sinto velho. E olha que eu até acho que o “velho” deveria ter preferência em filas e atendimentos gerais, mas desde que ele fosse (ou estivesse) efetivamente velho; e, neste sentido, continuo achando que não deveria ser o Estado a interferir na vida do cidadão para obrigar-lhe a ter aquilo que nele deveria ser inato, que é a educação.

Mas isso lá são outros “quinhentos”, ou, no caso, talvez melhor se disséssemos que são outros “sessenta”. O importante é que a vida segue.

Evidente que, pelo curso natural da vida, e considerando o padrão da idade média de vida do brasileiro, já acelero os passos para encontrar-me com o Criador. Se, 30 anos atrás, tinha expectativa de viver pelo menos mais 40 anos, hoje a expectativa se reduziu a um quarto. Em tese, teria, portanto, mais 10, quando muito 20 anos de vida pela frente. Não! Mas isto não me aflige. Embora não possa dizer que tenha vivido bons anos durante estas seis décadas que agora ficam para trás, ao menos trouxe destes anos o meu casamento e o fruto deles: meus três filhos que agora já vêm de me dar netos e netas. Lamentavelmente, para outras facetas da vida pregressa, não me agradam muito as lembranças.

Agora, ao refletir sobre os tantos erros cometidos, e começando a me desesperar por tentar querer fazer em 10 anos o que não fiz em 40, não posso chegar a outra conclusão que a de oferecer para mim mesmo um solene “mea culpa, mea máxima culpa”. Sim! Atribuir culpa a terceiros por nossas mazelas do passado é não ter a dignidade que a entrada para a velhice vem de requerer da gente. Fui o que fui, fiz o que fiz, deixei de ser o que gostaria de ter sido, deixei de fazer o que gostaria de ter feito por obra exclusiva de minha histórica teimosia se contrapondo à vontade principalmente de meu pai, e não aceitando convites de oportunidades que amigos distantes de Peruíbe me ofereceram.

Lembro-me de quando ingressei na faculdade em 1978. Naquele tempo – 39 anos atrás, e eu com 20 anos de idade, portanto! – eu sonhava que chegaria aos 30 com bacharelado e mestrado em Teologia, e tendo feito pelo menos um ou outro curso paralelo (talvez Sociologia, Filosofia ou Psicologia). Não me demorei mais que três anos e, em 1981, aos 24 anos, ingressava para a política, hipnotizado pelo canto de duas desajeitadas sereias, travestidas nas pessoas de dois amigos que me tiraram da faculdade e fizeram retornar para Peruíbe. E olha que eu bem que consultei o deão na faculdade, o glorioso, calmo, sereno e tranquilo professor Bertoldo Gatz, ao que ele me disse, em tom grave e forte sotaque alemão: “Washington, você vai deixar o faculdade, vai entrar para o política, depois você vai se casar, virão os filhos, e você nunca mais voltará para cá!”. Fora um vaticínio! Nunca mais voltei!

Ah, a política. Você conhece ciência mais ingrata que essa? Ou conhece alguém que tenha ascendido e sido bem-sucedido na política sem que tenha uma história para NÃO contar? É, meus queridos, fui vítima dessa engrenagem, desse redil cheio do visgo da desonestidade, da corrupção, do levar vantagem, do passar por cima dos outros, o pisar impiedosamente sobre a plebe.

Lembro bem a inauguração do estigma que me persegue até hoje nesta cidade. Era mês de setembro e o governo do estado fizera um concurso sobre o “Dia da Árvore”. Eu tinha talvez 16 anos. O casal querido de professores, Carlos Alfredo Ubrig e Jacira Marques Correa Ubrig (de inglês e português respectivamente) já conheciam meu talento para as letras, e me incentivaram a participar do certame, e eu sagrei-me vitorioso no município. Por iniciativa do médico e poeta Dalmar Americano da Costa, então vereador, a Câmara me conferiu uma moção, e, para entrega da homenagem, foi designada uma sessão solene. Dois terços dos nove vereadores da época torciam o nariz para a novidade, e foi assim que o então presidente Oswaldo Linardi pedia que aquele que me homenageara lesse meu trabalho da Tribuna, quando a expectativa de meus professores e colegas que enchiam o plenário da antiga sede do Legislativo. Dr. Dalmar, pressionado pelos colegas, alegou ter esquecido os óculos em casa, e a leitura coube propositadamente ao vereador Ildo Inocêncio, sabidamente semianalfabeto. Ildo, que era um sujeito metido a “facão sem cabo” (como diziam os antigos caiçaras), matou o meu trabalho, e o professor Carlão puxou uma vaia de seus alunos que reverbera até hoje sobre minha história, mesmo passado 44 anos!

Dias depois, quando o governo estadual chamava os representantes das cidades para o fase regional daquele concurso, e eu sem dinheiro, e meus pais sem recursos para me ajudarem a ir até Santos (e olha que naquela época ir a Santos era como ir para um outro país hoje!), me indicaram o também então vereador e advogado Eduardo Monteiro da Silva, representante do espólio das terras de Leão Novaes e, portanto, tido como “abastado” a que me ajudasse, e sua resposta foi das mais desmotivadoras para o pleito que fora lhe levar, embora naquele momento eu começasse a me sentir impelido a seguir a saga que me estava reservada pela vida e pela história, que era a de fazer jornalismo, embora desde sempre informal.

Mas este transe marcou uma sina: Nunca mais eu haveria de ser lembrado com alguma lembrança em termos de oportunidade, apoio ou incentivo ao meu trabalho que se seguiu àquele momento. Até mesmo aquele que me fora retirar de meu sonho na Capital, quando esteve em cargo de relevo junto ao governo do Estado, e, depois, quando se viu prefeito, sequer se lembrou de mim.

Nestes 60 anos de vida, dos quais 50 anos em Peruíbe, e 44 anos escrevendo a história e a política de Peruíbe, posso dizer que já vi muita coisa. Sou, como se poderia dizer, um registro ainda vivo de centenas de desmandos e mazelas colecionados junto à classe política municipal, notadamente de 1976 para cá, quando debutei nos bastidores de uma campanha eleitoral em Peruíbe. Mas, muito mais do que ter visto e registrado, soube pensar sobre o que fizeram e sobre o que deixaram de fazer por Peruíbe. E isso de “pensar” é o que aborrece esta casta acostumada a conduzir o povo com arreio curto e freio de fel.

Não quero me delongar nestes devaneios que a nada levam. Eu quero é mais – e que se rale o povo que gosta de ser gado marcado, e que sigam para o inferno no qual não acreditam todos aqueles que enfiaram no bolso qualquer tostão que tenha sido desviado na merenda de nossas crianças, ou de remédios e insumos da saúde municipal.

O que eu quero dizer é que, se eu vier a morrer hoje, em pleno dia de meu aniversário de 60 anos, eu, embora (como já dito) não possa dizer que fui necessária e efetivamente feliz, mas ao menos eu vivi com a dignidade daqueles que podem dormir – e morrer – em paz. Nem mesmo a dezena de processos da qual fui vítima nestes anos todos, nem mesmo os 17 dias que passei encarcerado por obra de uma acusação injusta, mas arquitetada por algumas pessoas que meu coração ainda permite receber hoje em minha casa como se nada eu soubesse, ou como se nada tivesse acontecido, podem ser maiores do que eu mesmo e do orgulho que carrego no peito de ter aprendido algumas regrinhas básicas de nossa língua pátria com minha saudosa professora Jacira, tornando-me hoje neste elogiado escritor – ainda que não reconhecido como devesse.

Se tributo honra aos meus professores, estendo glória a meu Deus, para seguir repetindo Gióia Júnior quando disse: “Para a glória de Deus é que em noites frias e longas madrugadas meus versos tenho escrito! Eis a grande verdade: Que vaidade teria a estrela em seu poder, a flôr em seu perfume?” Pois é. Sigo o exemplo registrado pelo Mestre em seu Sermão da Montanha para quem se nem mesmo Salomão, com todo seu esplendor e riquezas, se vestiu mais formosamente que um lírio do campo, quem seria eu agora para me ufanar por esta facilidade que os Céus me conferem?

Um dia, ainda no ano passado, quando registrei em meu blogue a passagem de André Santana pelo Gabinete, lembrando-lhe de suas constantes viagens de Turismo, e seguindo na lembrança de que “viajar ganhando R$ 10 mil por mês” é fácil, o insigne cerimonialista não demorou em destilar o veneno do qual tenho sido vítima anos a fio: “Pelo menos eu não tenho uma história triste para contar!”. Ele tinha razão. Minha história é triste. Mas história menos triste eu teria para contar se ele, seu compadre e protetor-mor Paulo Henrique Siqueira (Paulão), e a então prefeita Ana Preto et caterva tivessem honrado o compromisso comigo que se arrastava desde a campanha dela em 2012 que, se contabilizado hoje, daria mais de duas centenas de mil reais! Ah! Esteja certo, compadre André: Se eu tivesse dinheiro hoje, neste meu dia de aniversário, estaria com meus netos no colo, contando-lhes histórias boas e felizes neste meu dia, mas muito longe daqui, preferencialmente lá para as bandas das Minas Gerais, em cujo solo já sigo pretendendo ser sepultado um dia! E para isso não precisaria muito: bastariam os poucos meses que você ficou na chefia de Gabinete, ganhando estimados R$ 10 mil por mês!

Em família o momento não é lá para grandes comemorações. A enfermidade de meu irmão, e os revezes que se seguem a ela, não nos permitem brinde algum que o de continuar rogando a Deus que se apiede de nós, e nos conceda paz, ao menos paz, já que dinheiro, convenhamos, está difícil. Muito difícil.

Deus nos abençoe a todos. Sempre.

Washington Luiz de Paula

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