sexta-feira , 17 novembro 2017
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O que há de certo (e de errado) nesta traição

A exposição pública a que meu irmão Wanderlei Abrahão de Paula se expôs dia desses, através de seu perfil no Facebook, suscitou uma polêmica que, em dois dias, colecionou 300 curtidas e 144 manifestações de seus (a maioria) amigos e amigas.

Não venho aqui usar este meu espaço para estender julgamentos ou pré-julgamentos. Consoante à infidelidade conjugal tenho pensamento que fere alguns princípios mais radicais e ortodoxos, ao mesmo tempo em que sigo sendo ortodoxo no pensamento cristão de ser contra o divórcio, seja em que circunstância for. Para mim, a prevalência deve ser do perdão. Sempre.

Claro que há casos e há casos. O próprio Jesus, ao tentar mostrar que não tinha intenção de mudar a lei que permitia o oferecimento de carta de divórcio por parte do cônjuge somente em caso de adultério, mas sim de oferecer uma interpretação, digamos, mais justa, adequada e contemporânea ao tema, trouxe a lição de que não há limite para o perdão, que deve exceder à conta dos “setenta vezes sete”.

Mas, se errar é humano e o perdoar é divino, convenhamos: é mais fácil errar do que perdoar. Perdoar, por suposto, é horrivelmente difícil. É uma luta que se trava contra o ego, contra o amor próprio, o orgulho, a vaidade, os costumes, as tradições, as culturas, os preconceitos, a ponto de eu afirmar que somente aquele que experimenta o receber e dar perdão sincero e verdadeiro pode sentir a plenitude da paz e do amor também verdadeiro, que só Deus nos oferece e dá.

Como eu sou humano, confesso que, para o caso em tela, estou com pedras na mão! Mas, não para atirar sobre aquela que agora recebe a acusação de adultério, até porque torço que isso tenha sido um caso sazonal, esporádico, fruto de um momento de desespero que se estendeu ao transe cruel e triste pelo qual passa meu irmão; logo, se assim for, não podemos imputar-lhe pecha de “adúltera”, porque não useira e vezeira na lide. A pedra, se a fosse lançar, se a pudesse lançar, seria contra aquele que desgraçadamente se aproveita de um momento de fragilidade para se aproximar de um objeto de desejo puramente sexual e aventuresco, para quem imputo, com o perdão dos meus muitos pecados, mas com a boca empostada e as pregas vocais vibrando, e o ar apoiado no diafragma, o mais solene epíteto de CANALHA!

Não pensem que estou só nesta indignação. Como gosto de estatística, colhi as opiniões das manifestações apostas no desabafo de meu irmão, e vejam que curioso:

  • 59,72% dos que se manifestaram lá são homens, contra 40,28% de mulheres.
  • Dos homens que se manifestaram, 89,53% aprovaram a atitude do Wanderlei, e apenas 10,47% desaprovaram a exposição pública de sua vergonha familiar.
  • Já entre as mulheres, 84,48% se solidarizaram com o Wanderlei, e apenas 15,52% buscaram justificar razão para desaprovação do post publicado

Na regra geral 87,50% mostraram indignação contra a atitude da mulher, e se solidarizando com o Wanderlei. 12,50% ou esbravejaram pela acusação pública, ou simplesmente rogaram para o post fosse retirado do ar.

O que nos mostra e ensina isso? Em primeiro lugar expõe uma hipocrisia latente que aflora em momentos de descobrimentos como esse que não têm nada de inusitado, e que acontecem diariamente, estando a acontecer em algum canto desta cidade neste exato momento em que escrevo ou que você me lê. A traição conjugal é, inclusive, motivo de pilhéria, de piadas, e já entrou para o folclore. Em segundo lugar, que, principalmente numa cidade ainda pequena como Peruíbe, prevalece sempre o provincianismo.

Não se trata aqui de discutir que a mulher é sempre a culpada, até porque, como vemos nos números acima, são as próprias mulheres aquelas que mais condenam atitudes como a da esposa de meu irmão, e isto por uma razão simples: são elas as maiores intolerantes quando o assunto diz respeito à traição. A nomeação dos homens pelo expurgo da mulher pega em adultério é, digamos compreensível, e crédito seja dado ao corporativismo masculino.

Lógico que não estou dentre os 10,47% dos homens que desaprovaram a atitude do meu irmão. Eu a aprovo porque, conforme testificamos ontem à noite na casa de minha, isto “lavou sua alma”, e ele até que estava se sentindo bem mais leve – a ponto, inclusive, de pôr-se em pé por alguns segundos (e por pelo menos três vezes) – e sozinho! – o que é um feito memorável para alguém que a Medicina já condenou à cadeira de rodas para sempre! E mais: sorrindo (acho que de nós todos, o Wanderlei é aquele que tem o rosto e o sorriso mais bonito), ele me chamou a atenção para mostrar que conseguira balbuciar um “a – e – i – o – u”, que já valeriam toda comemoração do mundo, e compensariam toda amargura sofrida e passada até aqui.

Bem, mas entendo que merecemos respeito. Fazemos parte da história dessa cidade. Minha família é aquela que se pode chamar de “quatrocentona”, embora Peruíbe venha comemorar os 60 anos que amanhã comemoro somente daqui dois anos. Esse sujeito que resolveu interferir no curso da história de minha família, entendo que deixa de merecer o crédito, a consideração, a preferência, por parte de todos aqueles que, nesta cidade, nos conhecem, e conhecem cada um dos “de Paula”. Fosse ao tempo de minha avó Colutorina – a desteminha Nhá Coluta! – lá para as bandas de Rebouças, no sertão do Paraná, nos idos dos anos 50 (não muito longe, portanto), este sujeito seria amarrado a uma carroça, com uma canga ao pescoço, e atravessaria a cidade gritando: SOU ADÚLTERO! SOU ADÚLTERO! E se o grito não fosse convincente e alto, o chicote de três pontas comeria solto no lombo!

Os tempos são outros, e minha avó já morreu. Meu pai, com seu Schmidt à cinta também já morreu. E nós todos, porque sofrendo como estamos, também estamos sucumbindo face a inexorabilidade das coisas que acontecem ao nosso derredor e que não deveriam mais nos surpreender, mas que continuam nos surpreendendo.

A vergonha? Não! Esta não morre nunca! Continua por ai desfilando como se estivesse numa passarela da moda, certos que cada vez mais ficam da impunidade que para estes e outros casos se pereniza.

Que o bom Deus me faça sábio e forte o suficiente para dar o outro lado do rosto a este que nos bateu violentamente em uma de nossas faces – e que nos faça dignos de darmos também a túnica a este que nos roubou a capa.

Washington Luiz de Paula

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