sexta-feira , 17 novembro 2017
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Termoelétrica vs Vereadores – Onde estão os covardes?

No dia de hoje – dentro de algumas horas – os vereadores de Peruíbe estarão reunidos para votação de um projeto de lei que tem por objetivo acrescentar postura não prevista na Lei Orgânica do Município (LOM), ou então alterar alguma que já tenha certa previsão constitucional municipal, o que, para o calor do tema tal como corre nas ruas – e nas redes sociais, deixa de ser relevante essa tal forma legal que passa-se a exigir dos senhores deputados municipais.

Tenho dito aqui, e repetido por inúmeras vezes, que minha prosa neste campo não procura conduzir o meu leitor a pensar tal como eu penso e, principalmente, vir a querer aquilo que eu quero! Longe mim tal propósito que traria muito de arrogância da qual a idade tem me feito me desvencilhar faz tempo! Posto isto, é bom repetir que, portanto, não vou usar meu veículo de comunicação para tentar convencer ninguém de que a Termoelétrica para Peruíbe é um bom negócio, ou mesmo que não é um bom negócio. Sendo assim, como escritor que detém certa cultura, e costuma pensar livremente, se alguma coisa viesse a pretender com estas minhas mal traçadas linhas não seria outra que fazer com que você que me lê agora agite seus neurônios, e pense por si só, não sem antes se informar sobre o que tanto têm lhe dito de pró e de contra a esta insólita iniciativa empresarial que tem feito tanta gente perder o sono nesta cidade.

Pense. Pense e se informe. Se informe e pense.

Para os nobres edís que capitularam em suas vontades pouco ou nada confessáveis, principalmente quando se depararam com duas centenas de pessoas enchendo o plenário da Câmara, ou as cinco centenas que foram para as ruas reclamar pelo famoso “Usina, não!”, resta a pergunta crucial para este momento que antecede votação de tão importante lei, que inclusive tem caráter constitucional questionável por alguns entendidos: Vocês, ao votarem sim ou não pela aprovação ou rejeição da proposta legal, estarão sendo corajosos ou, a bem da verdade, covardes? Pelo sim, pelo não, pela aprovação ou pela rejeição, como é que os senhores votarão? Votarão impressionados com a claque que diz “não”, ou levados ao convencimento de que, deveras, tal investimento pode mesmo vir a ser importante para a cidade?

Certa feita, numa legislatura anterior, entrou-se em discussão matéria alheia à competência municipal, mas que merecia destaque no Congresso Nacional à época, que tratava da questão da legalização do aborto. A então vereadora Onira, do Partido dos Trabalhadores, em cujo programa defende a descriminalização do aborto, assumiu a Tribuna para defender a postura partidária, mas engasgou na falta de coragem de dizer, em alto e bom som, para que todos ouvissem que era favorável ao aborto. Já o vereador Zeca da Firenze não se olvidou, e nem mediu as palavras para vociferar que ele, como católico e praticamente, era contra o aborto e a favor da vida!

Evidente que tal postura rendeu votos a ambos, e ambos perderam votos. Quem mais perdeu ou mais ganhou, não sei. O que sei é o Zeca voltou para a Câmara nos anos posteriores; Onira, não!

Bem, esta digressão tem o condão de levar a você que é vereador, a você que é vereadora, que vai votar hoje, um motivo para pensar. Será que, tal e quais aqueles que estão exercendo pressão ferrenha contrária à instalação da usina, e que, por verem em você disposição de votar pela restrição legal, o chamam de “corajoso” (ou “corajosa”), você estaria sendo mesmo corajoso (ou corajosa)? Senão, vejamos: Qual dos senhores (ou das senhoras) pode dizer com sinceridade que teve a efetiva coragem de enfrentar a opinião de seus respectivos eleitorados, buscando saber de seus eleitores o que eles pensam, afinal, sobre a instalação ou não da usina? Ora, a lógica me leva a pensar que, se você não foi corajoso o suficiente para ouvir aqueles que fizeram você vereador (ou vereadora), você não só está sendo covarde, como pode estar traindo a confiança daqueles que votaram em você! Simples assim.

Esse susto constitucional de votar alguma coisa efetivamente dirigida contra uma iniciativa em particular, mascarada pela ideia de que, a partir da aprovação da lei, nada jamais emitirá qualquer fumaça poluidora na cidade é o que nos causa espécie. Parece mesmo perseguição, e a pior das perseguições, que é a perseguição política. Sim, porque, seria de se supor que o rito das leis, como soe acontecer em qualquer canto deste país, fosse regiamente seguido no tocante à aprovação de determinada lei, com previsão para sua regulamentação a posterior. Logo, se o legislador enceta uma lei que, no seu bojo já esclarece que isso não pode, e que as demais coisas poderão até mesmo a vir toleradas, é de se imaginar o cometimento de uma tremenda injustiça.

Por conseguinte, é de se perguntar se os veículos movidos a diesel que circulam pela cidade, cuja fumaça já foi considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como altamente cancerígena, estariam inscritos no caput da pretendida lei, ou, já que algumas autoridades municipais têm, afinal, veículos a diesel, a mesma lei fará vista grossa a este perigo iminente para a saúde pública?

Não quero discutir aqui absurdos como o que li recentemente nas redes sociais de que, se a usina termoelétrica for instalada em Peruíbe, as ilhas “Queimada Pequena” e “Queimada Grande” sumirão do mapa por conta do aquecimento da água do mar, como se tais ilhas fossem feitas de material esponjoso. Também não quero discutir outras provocações dos que são favoráveis à usina. Faça você mesmo seu juízo, e, se precisar de ajuda, escreva o termo “termoelétrica” no Google ou no Youtube, e você terá milhares de argumentos dos que são contrários, mas também milhares de argumentos dos que são favoráveis. Vivemos num mundo de bipolarizações: há médicos que dizem que café, álcool e torresmo fazem mal à saúde; mas há também médicos que dizem que banha de porco é essencial para a manutenção do bom colesterol, e que uma cervejinha com moderação é até bom para a saúde!

Insisto que deve prevalecer sempre a vontade do povo. Não daqueles que votaram no Luiz Maurício prefeito, que representaram a minoria do eleitorado; mas também não daqueles que têm vigorosamente se postado contrários à UTE, que, pelo demonstrar das manifestações e passeatas, são em número ainda menor que o da votação do prefeito.

Por esta ótica, tal e qual os vereadores que acho que sequer tiveram a brilhante ideia de consultar seu eleitorado, e vão logo partir para o cadafalso, sem mesmo saber se morrerão enforcados, ou se a corda se romperá pela má qualidade da matéria prima com que foi feita, fugir de um plebiscito é, a meu modesto ver, igualmente covardia.

O fato é que não será este meu divagar literário que mudará qualquer coisa na cabeça de quem quer que seja. E nem é esse o propósito, como já dito acima. A votação acontecerá agora, e prevejo que os vereadores votarão com o espanto daqueles que temem o furor da plebe manifesta pelo ardor dos presentes, e, da sessão de hoje por diante, só o tempo poderá se assenhorear dos resultados. É por isso que gosto de repetir Alessandro Manzoni, em seu famoso “Il Cinque Maggio”, escrito por ocasião da morte de Napoleão Bonaparte (1821): “Ai posteri l’ardua sentenza”.

Enquanto isso, onde é que estão, afinal, os outros? Digo os que são favoráveis à vinda da UTE para Peruíbe? Salvo um e outro paladino mais quixotesco, aqueles que manifestadamente acham que a usina até que traria progresso e recursos para cidade, e que ela não é, afinal, a “besta do Apocalipse” cheia de olhos, cabeças e chifres, têm, de fato, também se acovardado, senão pela falta de coragem para se organizar em favor de seus ideais, ao menos pelo temor e tremor que o urro do leão, mesmo estando longe, neles provoca. Até porque, todas as tentativas que tentaram levar a efeito de se trazer argumentos e informações favoráveis à UTE foram virulentamente combatidas.

Para quem como eu que participou, décadas atrás, ativamente contra a instalação das usinas nucleares nas praias do Juquiazinho e Arpoador, de cuja luta destemida (não só minha, evidente), nasceu a reserva da Jureia e outros parques que cercam Peruíbe por todos os lados, e que hoje presencia que nada daquilo que prometeram de contrapartida para nosso município por se permitir ser o “pulmão” de São Paulo socorreu nossa cidade, fico mesmo a imaginar que bem melhor se Peruíbe hoje fosse Angra dos Reis! Mas, para ter essa visão será preciso passar 40 anos pelo menos! E isto, é mais que certo, que muitos do que apostam todas suas fichas para que Peruíbe permaneça no marasmo em que vem se encontrando, jamais verá!

Pare. Reflita. Deve o destino de Peruíbe continuar nas mãos apenas dos gananciosos e dos arrogantes? O futuro hoje, vereador e vereadora, a você pertence!

Washington Luiz de Paula

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