quarta-feira , 13 dezembro 2017
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Ao mestre Joaquim Paulo, com carinho e saudade

Maestro Joaquim Paulo do Espírito Santo (esq.) e o discípulo Washington Luiz de Paula
Aquele que carregava “Espírito Santo” em seu nome só poderia mesmo ter sido dotado do dom que o notabilizou como exímio pianista. Dotado, não; superdotado! A mais singela expressão da quase simbiose que havia entre Joaquim Paulo do Espírito Santo com o piano eu ouvi numa das aulas de canto que tomava da professora Inês Stockler: “parece que o piano fala com ele, e ele com o piano”, disse ela certa vez, tal a leveza com que tocava. E era assim mesmo: fosse possível, Joaquim Paulo levaria seu indefectível piano, a tiracolo, por onde quer que fosse.

Desta sorte o piano talvez tenha lhe sido seu mais fiel companheiro. Era o seu cão amigo. Nenhuma outra pessoa talvez tenha dedicado o carinho e atenção que Joaquim Paulo merecia, não só por seu incomensurável talento, mas também por ser um homem simples que mal chegou a experimentar os píncaros da glória como músico, mas que, justamente por ser simples, sofreu agruras tantas, das quais a que mais lhe doía na alma, muito certamente, era o abandono de parentes, amigos e irmãos de fé.

Para quem viu Joaquim Paulo derramando lágrimas amargas do desespero de saber-se totalmente dependente dos poucos que ainda restaram próximos de seu convívio como eu vi, posso dizer com tristeza perene que tanto mais gostaria de fazer por ele quanto menos poderia fazer. Estive ao seu lado até que, mesmo involuntariamente, o bastão do cuidado foi passado para um ex-aluno – o cantor erudito Carlos Mader – quem foi seu anjo da guarda aqui na terra, até que, por sua vez, agora passasse o bastão do cuidado terreal para os anjos cuidarem dele lá na eternidade.

Mas, quem era Joaquim Paulo do Espírito Santo? Ele era meu amigo, professor de canto e regência, acompanhante de piano nos solos que cheguei a fazer pelas igrejas da região de Santo Amaro, e, sobretudo, grande incentivador de meus modestos dotes musicais. Lembro com que orgulho regi o coro da Igreja Batista Central de Santo Amaro em encontro de corais sacros na cidade de São Roque tendo ao piano o maestro Joaquim. Ele, que era um perfeccionista, chegou a ceder à minha imperfeição como regente; e, depois, quando vinha a bronca e a crítica, eram elas sempre acompanhadas de um largo e incentivador sorriso.

Seu currículo (veja aqui) ia muito além de acompanhar a mim e a seus ex-alunos em cultos religiosos ou em saraus em casas de amigos. Ele, cuja extensão musical atravessou fronteiras, chegando à Europa e Estados Unidos, acabou seus dias num cômodo e banheiro na periferia da capital, de onde só viria a sair para a peregrinação que se seguiu de estar internado em vários hospitais. Mas não conseguia disfarçar que gostava mesmo era de estar entre seus ex-alunos, e de tocar graciosamente para eles!

A tristeza que toma conta de mim neste momento não é tanto a do seu passamento, já que sua passagem é um descanso do tanto que sofreu nos últimos meses. Como disse ao amigo comum e também maestro Sebastião Soares Teixeira, tristeza maior é a de saber que Joaquim Paulo do Espírito Santo foi vilipendiado e expulso de uma comunidade cristã, acusado de um assédio que fizera a uma distinta senhora, o que mais tarde viria a confessar e a tentar se desculpar com a “vítima” que não era outra que uma “namorada”, embora esta não tivesse aparecido no encontro que o conselho pastoral convocara para este fim. Do episódio restou a lição dada por Jesus ao advertir os fariseus sobre a “trave” que ofuscava a vista do que somente conseguiam enxergar o defeito nos outros, vez que sua acusadora acabou excluída por estar – quem diria? – assediando alguns homens casados dentro da própria membresia.

Não foi bastante a utilidade do talento de Joaquim Paulo para o serviço da igreja local e, quiçá, para o Reino. Não foi levada em conta o primoroso trabalho que Joaquim Paulo conseguiu encetar com os músicos da igreja. Não foi levada em conta a humildade da qual devemos nos revestir. O Sermão da Montanha foi jogado no lixo!

Eis aí a mágoa que Joaquim Paulo do Espírito Santo carrega agora para o túmulo. Eis aqui o sofrimento que carrego no peito de não ter tido, a seu tempo, a coragem necessária para acolhê-lo em minha casa, mesmo morando num apartamento de três dormitórios onde existiam dois quatros inúteis. Eis o lamento de mais não ter podido fazer por ele por absoluta falta de condição financeira, mas, sobretudo, de não ter feito por ele o que poderia ter feito, ainda que com pouco dinheiro.

Vá em paz, Joaquim. Descanse, maestro. Aproveite, porque agora você pode descansar e não mais sentir dor. O céu é um lugar maravilhoso onde não há discriminação de qualquer espécie.

Deus esteja consigo. Deus permaneça conosco. Amém.

Washington Luiz de Paula

No vídeo abaixo, o maestro Joaquim Paulo interpreta ao piano “Clair de Lune”, de Debussy

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