terça-feira , 12 dezembro 2017
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Parada Gay – Uma senhora parada para o Governo Municipal

Escrevo estas mal traçadas linhas para dissertar sobre o assunto do momento: Peruíbe, em todo esse seu invólucro provinciano e conservador, há de experimentar uma sensação sui generis, nunca vista em toda sua história, no próximo domingo, dia 25 – A I Parada do Orgulho LGBT, ou, em palavras mais curtas, a sua versão peruibana da “Parada Gay”.

O assunto, que já não deveria ser mais polêmico, ainda o é. Notadamente quando se faz confusão entre um evento que mal se sabe que envergadura terá, afinal, com os assuntos que dizem respeito à condução da administração municipal, e de modo especial, ao de cunho político.

Dito isto, respondo a todo aquele que já vem se usurpando do esforço individual do idealizador e organizador da “nossa” Parada Gay, para tentar lançar as setas da crítica para cima do prefeito Luiz Maurício e seu governo: Não! A Parada Gay de Peruíbe não é uma iniciativa do prefeito Luiz Maurício, e nem ele está trazendo este evento, quando, ao sabor do interesse deste e daquele, deveria trazer aquele outro evento, ou ainda aquele outro.

O que se tenta é macular a imagem de um homem que até aqui tem se revelado probo. O que não revelam aqueles que, com seus interesses sempre inconfessáveis, é levar o povo (por via de consequência, o eleitor que, se consultado, certamente em sua maioria seria contrário a um evento desta natureza), a se rebelar politicamente contra o prefeito e seu governo.

Vejam, senhores, não se trata aqui do prefeito Luiz Maurício. Fosse ele o Emer, o Barros, Mário Omuro, ou mesmo Gilson Bargieri hoje prefeito, todos enfrentariam esta mesmo duplo impasse, que lembra bem a historieta do “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Porquanto isso, é preciso que se diga que o prefeito, seja ele quem for, a despeito de suas vontades ou desejos, de suas preferências ou querências, tem que ter aquele elã que o notabiliza como homem público, que é o de defender o interesse público – independentemente de seu próprio e pessoal interesse – e fazer cumprir as leis.

Bem verdade que esta questão dos movimentos que aglutinam os interesses das lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros, ainda é assunto escondido dentro do armário para os que se acham donos da moral e dos bons costumes, principalmente quando falamos de uma cidade ainda pequena como Peruíbe. O assunto é tão velado por aqui, que dificilmente encontraríamos mesmo um (ou uma) homossexual subindo no palanque eleitoral para confessar sua condição de gênero, e, consequentemente, pedir os votos dos seus pares e ímpares.

Trilhando por este mesmo espinhoso e pedregoso caminho a questão da homossexualidade encontra outras questões que sofrem igual ou até maior preconceito, como as que dizem respeito às religiões afro e as de raça e cor.

Embora evangélico (hetero, e quase teólogo) bem que poderia tecer aqui um tratado em defesa de meus conceitos teológicos acerca do tema, mas a virtude que o próprio Evangelho me ensina, não me permite fazê-lo. Logo, se o Cristo ensinou que não devemos fazer acepção de pessoas, e mesmo a lei mosaica ensina que devemos receber a todos sob o nosso teto como se nossos irmãos fossem, não me permitirei eu a dar lugar à hipocrisia latente e patente no meio desta sociedade preconceituosa em que vivemos.

Portanto, se você pensa que só o homossexual é que sofre preconceito em Peruíbe, dê uma passada ao largo do comércio desde as avenidas Padre Anchieta, São João e 24 de Dezembro, e veja se encontra uma negra ou gordinha trabalhando nas lojas. Se for rapaz, a chance é menor; se for homossexual, piorou!

O tema desta prédica não é esse, e agradeço terem-me permitido a digressão, embora pertinente.

Falava da dura parada enfrentada pelo prefeito Luiz Maurício de ter que aceitar desfilando por nossas ruas no próximo domingo esperadas centenas de manifestantes gays e outros não necessariamente gays, mas que defendem o movimento LGBT. E é preciso repetir aqui o que já disse acima: O prefeito Luiz Maurício não trouxe a Parada Gay para a cidade, embora tenha tido que aceitá-la. E fê-lo na mais pura demonstração de que tem ele – Luiz Maurício – a plena consciência que ele não é o Governo, mas que está no Governo.

Quando perguntado sobre o que achava da vinda da Termoelétrica para Peruíbe, o prefeito foi incisivo: “Eu não tenho que achar nada. Fui eleito para defender o interesse público e o fiel cumprimento das leis”. Ora, nesse caso também da Parada Gay não há que se prejulgar o prefeito por ter assentido na realização do evento, já que está expresso o interesse público do evento (embora que não maioria), e também expresso está que a lei está sendo cumprida e há de se continuar cumprindo. E a Parada Gay é um evento perfeitamente legal, que conta com apoio e incentivo dos governos estadual e federal.

Ademais, outras festas populares acabam permitindo certas “extravagâncias”, como o Carnaval, por exemplo. E ainda que o prefeito não viesse a gostar do Carnaval, não seria de bom tom que ele pura e simplesmente o proibisse na cidade.

O mentor da I Parada do Orgulho LGBT de Peruíbe é o ativista (e homossexual) Agamenon Della Calle. Este moço trabalhou comigo da redação do “Acontece’ quando guardinha mirim. É filho da terra, e merece nossa consideração e respeito, não só pela dignidade com que assume sua condição sexual, como também pelo desprendimento com que se aplica à causa que defende – e tudo isso com recursos financeiros beirando a praticamente zero.

Talvez sem sequer ter se lembrado de John Kennedy, Agamenon parece não ter perguntado o que sua cidade poderia fazer por ele, mas sim o que ele poderia fazer por sua cidade. E ele o fez. E ele o está fazendo. Ao prefeito, aos vereadores e às demais autoridades municipais cabem dedicar-lhe agradecimento e, no que puderem, apoio.

Sendo assim, assim como as duas únicas manifestações públicas que restaram permitidas pelo prefeito João Dória na avenida Paulista, na Capital, quais sejam a Parada Gay e a Marcha para Jesus, que os evangélicos e católicos (por que não?) de Peruíbe também se unam numa frente para promover uma grande “Marcha para Jesus” que faça movimentar toda a cidade – mas isso sem esperar dinheiro público, o que é difícil, convenhamos, para uma cidade onde a própria Associação Comercial não consegue fazer sequer um bolo para o aniversário da cidade sem esperar as benesses dos cofres do governo…

Eu ainda estou incerto sobre o sucesso dessa empreitada para este domingo, confesso. Mas torço que dê muitíssimo certo. O hoteleiro, o dono da pizzaria, o dono do restaurante, da padaria, da cafeteria, do barzinho, pode até torcer o nariz para essa “viadagem”, mas duvido que fechem a porta para essa gente que costuma andar com muito dinheiro no bolso.

Na segunda-feira, 26, ao empreendedor Agamenon Della Calle restará aquele sentimento que é um misto de tristeza e alegria ao mesmo tempo, de saber que se der muito certo, como ele mesmo espera, o bônus sempre será do Governo; se alguma coisa der errado, o ônus será dele.

Deus o abençoe, Agamenon. Que outros repitam seu gesto, e façam por Peruíbe aquilo que pensam ser obrigação só do Governo fazê-lo.

Washington Luiz de Paula

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