Início / OPINIÃO / Copa do Mundo – a “bola” que está em nossos pés.

Copa do Mundo – a “bola” que está em nossos pés.

Brasil, 12 de junho de 2014. O povo brasileiro acorda hoje dividido entre o sonho do hexacampeonato mundial e o pesadelo das preocupações sobre o que haverá de acontecer à sua volta não só hoje, mas daqui para diante, durante a copa, e após ela.

Da janela do meu apartamento aqui no centro de Santo Amaro o que vislumbro é um clima de serenidade e paz. Buzinas tocam um pouco mais insistentemente, agora não mais para fazer o trânsito andar mais rápido, mas para comemorar o início. Cornetas são ouvidas desde as ruas nos arredores, e estão até nas mãos do mais indigente dos indigentes que dormem nas ruas. Havemos de comemorar o início! Sim! Mas a preocupação é latente e teimosa em perguntar: inicio do quê? Todo início é um começo, todo início leva para um fim. Para uns o final é de glória, para outros de desespero. E aqui é que um tênue liame divide o sonho do pesadelo, um ou outro iminente.

A prédica ouvida no último sábado durante as comemorações dos 50 anos da igreja que frequento relembrava o quanto o Brasil é um país simpático para o restante do mundo. E é verdade. Já ouvi testemunhos de profissionais e missionários trabalhando em países hostis e em guerra civil ou étnica que, sequestrados por grupos guerrilheiros, ao declararem-se brasileiros foram poupados e receberam tratamento de respeito e amizade. Não há quem não queira ouvir mais do Pelé de outrora ou do Neymar de agora, e também – porque ninguém é de ferro – das mulatas que desfilam seminuas nos desfiles carnavalescos Brasil afora. Estas mulatas, Pelé e Neymar já salvaram bem mais vidas que toda e qualquer ação que a ONU tenha promovido nestes lugares de extrema conturbação social.

E é assim que hoje o mundo todo pode acompanhar assim de tão pertinho se é verdade que todo o povo brasileiro é hospitaleiro e dócil, se é fato que todas as mulatas são verdadeiramente bonitas quanto a passista da escola de samba campeã do carnaval, e se todos jogam bola tão bem quanto jogou Pelé ou joga Neymar.

Mas no inconsciente coletivo não é esta a preocupação que lá faz morada. Ainda que eu não perceba, ainda que você não perceba, ainda que todos nós não percebamos, a preocupação instalada por trás daquilo que Malcolm Gladwell resolveu chamar de “porta trancada” como sendo o inconsciente, em seu livro “Blink – A decisão num Piscar de Olhos”, é mais do que certo de que, enquanto torcemos pela saborosa vitória do Brasil no jogo de hoje, e nos jogos subsequentes, por trás da tal “porta trancada”, nosso cérebro busca informações para nos permitir saídas e soluções para a crise que poderá se instalar no país, principalmente se o Brasil perder a copa, ou se sequer passar para a fase seguinte.

Por suposto, é possível definir que a reeleição de Dilma Rousseff, e a manutenção do establishment petista estão bem mais longe dos votos do povo encabrestado por um cartão social de cento e poucos reais do que propriamente dito pelo desempenho dos pés dos jogadores da seleção brasileira durante os jogos da copa. Curioso ou não, os louros do sucesso do Brasil na copa não serão dos jogadores como aconteceu com o tricampeonato em 1970, por exemplo, mas é mais que certo que o aproveitamento da vitória será tal e de tanto vulto pelo governo que aos jogadores quase que restará o ostracismo dos álbuns de figurinhas. Todavia, na outra ponta, o insucesso dos jogadores brasileiros em campo legará a eles a responsabilidade pelo caos que poderá se levantar em todos os cantos do Brasil, numa revolta como que se despertados de repente da letargia a que o futebol leva o povo. O futebol, por conseguinte, é o ópio do povo, parafraseando Karl Marx.

As mídias de grande porte, embora cumpram o seu papel em nome da massiva verba publicitária que o apelo da pelota reclama, e torçam com a força das centenas de milhares de aparelhos ligados nos estádios onde acontecem os jogos, também têm elas a preocupação de trazer a notícia cada vez mais em tempo real, notadamente das insatisfações contra o evento da Copa, algumas tímidas outras encontrando maior preocupação por parte das autoridades. Mais do que isso, contribuem por reverberar a preocupação que filósofos e cientistas políticos e sociais insistem em alertar, como esta que eu, ainda que modesto escritor, relato por estas linhas.

O tom apocalíptico do que aqui escrevo, assim como dos comentários e veiculações das verdades e fatos que têm acontecido por todo o canto do Brasil, encontra resistência no discurso dos positivistas ou otimistas pró-governo que, não tendo muito com que rebater, nos acusam de “reacionário de direita”, de “mídia golpista” e assim por diante. Tenho consciência disso. Mas também não me preocupa, vez que se escrevo o que escrevo, se falo o que falo, se faço o que faço, o faço não porque sofri lavagem cerebral de discursos e propaganda goebbelsriana, mas porque penso. Penso e me preocupo.

Pessoalmente entendo mesmo que o adiamento da extrema desordem social que dia mais dia menos haverá de se irromper em nosso país está mesmo na vontade e na capacidade que nossos jogadores tenham de se revelar bem melhores durante os jogos da copa do que nos jogos que a prepararam. Mas, se o Brasil – leia-se governo e governantes – não se remediar, se a corrupção continuar fazendo parte da carteira de identidade dos nossos políticos, o levante será inevitável.

Este vaticínio do qual tenho certeza muitos pensadores já se aperceberam – e com ele se preocupam, tal e qual eu me preocupo, virá já, agora, caso, como dito acima, o Brasil não avance para as fases seguintes da copa; mas virá depois, num belo dia, quando a chamada classe média e produtiva brasileira resolver parar de produzir porque descobriu que bem melhor é não trabalhar para ser beneficiário das “conquistas sociais” do que se matar de trabalhar para sustentar aquela enorme e crescente parcela da população que, seguindo o preceito de Luiz Gonzaga, se viu viciada pela esmola dada pela nação, ainda que a um homem que é são. Afinal, Margareth Thatcher tinha razão em lembrar que “não existe dinheiro público; existe dinheiro de pagador de impostos”; e adverte: “O problema do socialismo é que um dia o dinheiro dos outros acaba”.

Foi em 1931, 83 anos passado, que o político e teólogo norte-americano Adrian Rogers concluiu: “Quando metade da população entende a ideia de que não precisa trabalhar, pois a outra metade da população irá sustentá-la, e quando esta outra metade entende que não vale mais a pena trabalhar para sustentar a primeira metade, então chegamos ao começo do fim de uma nação”. E como virá o fim? Quando o cidadão e cidadã já viciado com a esmola que lhe dá aquele que trabalha e produz – e não o governo! – for até a agência da Caixa ou da Lotérica e descobrir que não há mais dinheiro a ser distribuído. Neste dia, cujo arremedo nós já vislumbramos meses atrás quando espalharam o boato de que estas “bolsas” iriam ou teriam se acabado, estará instalado o caos; e, com ele, o fim.

A vitória do Brasil na copa conferirá, por isso, status de heroísmo e de salvadores da pátria aos nossos jogadores. Depois disso, e se isso se concretizar, a bola mudará de pés. Estará nos nossos.

Washington Luiz de Paula

COMENTE ESTA POSTAGEM:
Joomla extensions, Wordpress plugins

Leia também:

Olavo de Carvalho dá aviso mais importante já dado aos brasileiros. Vejam.

COMENTE ESTA POSTAGEM: