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Nós, os batistas, a cooperação entre as igrejas e a canonização do método

 (…) aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento. (Gênesis 3)

Prof. Dr. Jorge Schütz*

Desde há muitos anos, na década de setenta quando ingressei no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil vindo de Porto Alegre para o Rio de Janeiro, numa fase, digamos, pós-adolescente, que ouço e leio referências à categoria “cooperação” no segmento batista.

E ao longo dos anos, construindo outra formação acadêmica e na militância pastoral, passei a reler a categoria “cooperação” observando a divergência estrutural entre os escritos nos documentos batistas e o que é atribuído a ela pelo discurso massificador das lideranças denominacionais, a tal ponto que o termo “cooperação” deusificou-se, idolatrizou-se, passou de modelo de convivência com fins definidos entre igrejas batistas autônomas à “entidade mística”, desta forma justificando a perenidade atemporal de associações regionais batistas, convenções estaduais batistas e até de uma convenção nacional batista, de forma que elas se mantenham ‘vivas’, corpos invisíveis para além da execução dos fins para os quais foram criadas, a saber: a evangelização (que compete notadamente à igreja local), a educação teológica, a educação secular, a ação social e a benemerência, as quais seriam “seus fins”, segundo a Declaração Doutrinária da CBB. E até nos dízimos recolhidos pelas igrejas intencionam participar pelo discurso que essas instituições terão sobrevida ao receber o “dízimo dos dízimos” pago pelas igrejas autônomas.

E assim, como o mito que morre e se reinventa, perpetuam-se sem gerar receitas, mas despesas. São estes organismos funcionais que buscam para si de tempos em tempos outras atribuições e se consolidam como forças de núcleos políticos e fontes de partilha de poder num sistema oligárquico, não batista. Espera-se não haja estranhamento por parte do leitor ou leitora. Justifica-se a razão de ser do dito estritamente nos termos introdutórios da Declaração Doutrinaria da Convenção Batista Brasileira, à página 1, como segue:

“Caracterizam-se também os batistas pela intensa e ativa cooperação entre suas igrejas. Não havendo nenhum poder que possa constranger a igreja local, a não ser a vontade de Deus, manifestada através de seu Santo Espírito, os batistas, baseados nesse princípio da cooperação voluntária das igrejas, realizam uma obra geral de missões, em que foram pioneiros entre os evangélicos nos tempos modernos; de evangelização, de educação teológica, religiosa e secular; de ação social e de beneficência. Para a execução desses fins, organizam associações regionais e convenções estaduais e nacionais, não tendo estas, no entanto, autoridade sobre as igrejas; devendo suas resoluções ser entendidas como sugestões ou apelos.”

As categorias “evangelização, missões, *evangelismo e *missão” fazem parte de um conjunto de termos na Teologia da Missão cuja clareza não é meridiana para Nós, os batistas. Utilizamos estes termos um pelo outro, sem precisão na linguagem. Destarte, singularizo o termo “evangelização” e os demais que figuram na Declaração da CBB (educação teológica, religiosa e secular; ação social e de beneficência) reservo para abordagens futuras sobre a “cooperação”.

Nossa prática de evangelização desenhou seus contornos desde o inicio, aqui no Brasil, pelo triunfalismo e o embate apologético de enfrentamento. Isto é possível ser avistado em nossa literatura desde há muito. Veja-se, por exemplo, a obra ‘A origem e história dos baptistas (FORD, p.7) que expõe: “não fazemos questão do nome baptista, que somos baptizadores de crentes em Cristo; não negamos, porém, o nome baptizador exprime somente uma doutrina que praticamos. Este nome como muitos outros nos foi aplicado pelos que nos são contrários”. E à página 159 reafirma o exclusivismo rançoso: “as igrejas de Cristo, comumente chamadas de batistas, não têm relação alguma com qualquer outra organização que professa ser igreja e tratam todos como fora da igreja de Cristo, até que são recebidos e batizados (ou submergidos) na casa da fé”. Tal versão da obra fora elaborada por Zacharias Taylor (1851-1919 – missionário norte americano). Assim como não é de se estranhar que na obra de história dos batistas no Brasil, segundo José dos Reis Pereira, sob o título “História dos Batistas no Brasil 1882-1982” escrita e publicada em comemoração ao centenário dos batistas, de pronto sinaliza já à página 19, que Antônio Teixeira de Albuquerque, que fora o primeiro batizado em solo da pátria amada, fez sua trajetória saindo da Igreja Católica (onde era pretendente ao sacerdócio), passando pela Igreja Metodista, e depois batizado por Robert Thomas, denominado de pastor-colono, e então fora consagrado como pastor batista, ao tempo quando o casal Bagby recém aportava em solo verde e amarelo, nas plagas de Santa Bárbara do Oeste (SP).

Assim vai se revelando que a evangelização praticada pelos batistas nos primórdios estava nitidamente focada em “ganhar almas” arrebatando-as do catolicismo “idolátrico” para o batistismo da fé verdadeira (?!). Não é sem razão que o ilustre escritor Zaqueu Moreira de Oliveira reuniu um conjunto de fatos para ilustrar a sua obra “Perseguidos, mas não desamparados – 90 anos de perseguição religiosa contra os batistas brasileiros” (1880-1970), obra que não se tem a pretensão de resenhar aqui, mas que coloca a Nós, os batistas, no tronco do suplício, no pelourinho, na condição de vítimas, e que pela vitimização, o algoz (a igreja católica) fora derrotada pelo sangue dos mártires (!); e, neste contexto, os católicos, todos são identificados como feitores com chicotes nas mãos a perseguir os batistas, e alguns foram salvos dos maus tratos pela mão de Deus, e outros sabidamente pela Maçonaria, pelos vínculos de missionários com ela, e pelos princípios em torno da liberdade esposados por esta instituição.

Entretanto, há pelo menos dois autores que lançam luz sobre o quadro de perseguição com ocorrências em campos religiosos que podem ajudar as leituras a partir de outro olhar aos textos de Pereira, assim como o de Oliveira. São eles: Pierre Bourdieu (Economia das Trocas Simbólicas), e, novamente Max Weber, que lança luz sobre as seitas batistas colocando-as ao lado de outros segmentos radicais sectários como os menonitas e quakers entre os séculos XVI e XVII. Portanto, a evangelização inicial dos batistas era anticatólica, com pretensões totalizantes, ou seja, os batistas pretendiam a hegemonia e a visibilidade social mediante o embate e a contradição à Igreja Católica presente no Brasil por quatrocentos anos naquela altura. E ainda mais: a assunção ao espaço ocupado pela burguesia e pela elite intelectualizada.

Ora, pela natureza combativa e apologética adotada por Nós, os batistas, é fácil admitir-se que, se houvesse situação contrária sendo Nós batistas dominantes no campo religioso de então e aqui sedimentados no território à semelhança da Igreja Católica, seríamos, sem dúvidas, arautos e agentes da perseguição contra eles. Assim como se diz terem feito conosco! Em se tratando de disputa por campo de dominação religiosa não há santos, nem anjos. Há violência, infelizmente.

A título de ilustração, observam-se os formatos de religiões que se lançam num espaço alheio dominado por outra com a pretensão hegemônica, lucro simbólico e mentalidade totalizante, trazendo-se à memória a implantação da Igreja Universal do Reino de Deus e sua saga atirando para todos os lados, quer contra religiões de expressões afros, quer contra a igreja católica que foi demarcada pelo ‘missionário’ coiceando a imagem da santa, aviltando vergonhosamente um dos símbolos máximos da espiritualidade católica em culto fanatizado via canal de televisão.

A evangelização para Nós, os batistas, hoje é um termo vago, senão vazio, que respira como paciente terminal através de uma expressão comum – “de fazer missões” – que se vem tornando a cada dia um aparelho caro cuja cota financeira é requerida às igrejas batistas (pois as agências missionárias não produzem custeio próprio). Essa ideologia de “fazer missões” se apresenta por meio de motes do tipo “missões nasceu no coração de Deus”, “Jesus foi o primeiro missionário”, “Deus deu o seu filho por missões” (e você tem que dar dinheiro!!) e se traveste num emaranhado de informações ideologicamente construídas para divulgação nas comunidades de fé sobre lugares carentes do evangelho no Brasil e fora dele, acerca dos quais, quem viaja um pouquinho em terras brasileiras e para além das fronteiras, lê jornais, desenvolveu o hábito de ler livros e até mesmo acessa à internet, se apercebe que o “papagaio promocional das agências missionárias convencionais, quer de associações regionais, convenções estaduais e convenção brasileira não é tão verde quanto lhe pintam”.

Porém, o ponto focal é que Nós, os batistas, estamos atualmente vendidos no quesito “evangelização”, muito embora, conforme conste em nossa Declaração Doutrinária, poderíamos recorrer à “cooperação” para revê-la e sistematizá-la dentro de limites da contemporaneidade, pois assim expõe: “Para a execução desses fins… [de evangelização, de educação teológica, religiosa e secular; de ação social e de beneficência]… organizam associações regionais e convenções estaduais e nacionais”.

Ora, se as igrejas vão se transformando em empresas com lideranças ascendendo ao estrelato; os cultos embalados e constituídos em formatos de shows gospel; os batismos (por imersão) respondendo prioritariamente ao crescimento vegetativo das igrejas (sendo que outra parcela de membresia chega à igreja via o bonde do transito religioso, cujo plantel é fornecido pelas igrejas neopentecostais), nos púlpitos reverberam sermões de autoajuda que muito exaltam o individualismo e pouco a Jesus Cristo, o que fazer? Na outra ponta dessa realidade estão as convenções batistas que se estruturam com sedes próprias, pessoal administrativo, patrimônios, veículos, equipamentos e mobiliário administrativo, verbas de manutenção para viagens, hospedagens e outros. Geram seus estatutos, seus calendários, suas reuniões, seus processos de gestão, seus planos anuais e quinquenais, seus orçamentos, suas linhas de comando e fazem deste circulo “seleto” um lugar desejado, cobiçado por pastores e pastoras, visto que, para alguns/algumas participar dessa esfera denominacional em paralelo à igreja batista confere status junto à comunidade de fé que esse/essa tal preside; e com a falsa sensação de status e outras certas regalias como visibilidade, projeção social, poder e imunidade jurídica para criticar e falar o que quiser e de quem quiser (ledo engano!), cria-se esse mundo fantasioso anexo à igreja batista, que desperta e atrai a muitos.

E assim, Nós, os batistas (graças a Deus), superamos aquela evangelização truculenta, exclusivista e triunfalista, mas tropeçamos e caímos num vazio burocrático cuja conta é alta. As estruturas convencionais perderam o bonde da história, o bom senso autocrítico e seguem para um futuro incerto, regidos à semelhança do Padroado. O belo conceito da “cooperação” que poderia ser um distintivo em nossas relações eclesiais, sucumbiu, fossilizou-se. Tornou-se uma categoria fria, resguardada num documento denominado Declaração Doutrinária da CBB como se este fosse qual museu a preservar peças de antiguidade. Não há esperanças de recuperação nem sinais do retorno legítimo à “cooperação” pura e simples. Somente ecoa entre Nós, os batistas, um discurso anacrônico, mas intencional, de manutenção do denominado plano cooperativo aparentemente “vivo” para sustentar um resíduo opressivo de “status quo” vigente, que procura se manter com um discurso de “batista”, sem de fato realmente ser.

Atentem os batistas em preservar o que ainda resta e é caro a Nós, os batistas, a saber: As Escrituras como única regra de fé; A autonomia da Igreja; A liberdade de consciência e nossa submissão integral ao Senhorio de Jesus Cristo.

(*) Jorge Schütz é pastor batista formado em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, doutor em Ciências da Religião e professor na Faculdade de Teologia da Universidade Metodista.

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