Por que odeio o Mercado Livre

Eu tentei. Eu juro que tentei! Mas minhas relações com o Mercado Livre sempre foram muito tumultuadas. Não eram para ser assim. Mas foram.

Minha história de amor e ódio com o Mercado Livre começou praticamente quando eles começaram as atividades deles no Brasil, em 1991. Eu tinha cadastro no Arremate.com e depois fiz no Mercado Livre. Não demorou muito o Arremate.com incomodou o gigante que já vinha de um crescendo cada vez maior, e o Mercado Livre acabou por compra-lo. Com a junção, fiquei com um só cadastro.

Comecei vendendo livros, novos e usados, e depois decidi partir para informática. Peguei a representação de um distribuidor de São Paulo, e estava indo bem, até que um dia um usuário me “comprou” um notebook que, naquela época, custava o equivalente a 10 mil dólares. O filho da mãe não pagou – e, logicamente, não levou o notebook. Mas me qualificou “positivo” como se a venda houvera feito, e mais: em seu comentário se disse satisfeito com a compra… Pode? Claro que pode. Tem louco para tudo. Mas, dai começou minha primeira batalha com o Mercado Livre: provar que eu não vendera o notebook, não recebera dinheiro algum (tanto que o qualificara como “negativo”) e que, portanto, não deveria – nem poderia – pagar a comissão de 4,9% (acho que era esse o percentual) que me lançaram em minha fatura.

Eles não acreditaram na minha versão, eu não paguei a fatura e, como “prêmio” meu cadastro foi cancelado, mesmo eu tendo perto de 100% de qualificações positivas e centenas de vendas realizadas com sucesso (com as devidas comissões e taxas de anúncios pagas ao Mercado Livre).

E, quando eles excluem você, é para nunca mais você voltar! Eles o lançam impiedosamente nas chamas do inferno se você bobear.

Como eu já viciara neste negócio de vendas online, o que realmente já vinha me dando um dinheirinho melhor e maior que o da minha lida fazendo jornal, abri um novo cadastro em nome de meu filho. Desta vez cuidei para não cair na mesma armadilha do passado, e passei a atender somente compradores bem conceituados na comunidade, deixando de vender para compradores novos, a menos que eles concordassem em depósito antecipado no valor de suas compras.

A coisa evoluiu. Cheguei a fazer 20, 30 vendas num único dia, e tinha que ir aos Correios despachar mercadoria pelo menos duas vezes por dia. Fui Mercado Líder, e Mercado Líder Gold, com 99% de qualificações positivas, e já quase 1.400 pontos positivos, com perto de 6.000 itens vendidos (tive um só cliente, um advogado da Bahia que me comprou 140 livros!).

Todo dia tinha um dinheirinho na minha conta, e não me importava de chegar a pagar até R$ 1.000,00 de comissão num único mês para o Mercado Livre.

Mas dai começou minha segunda batalha. Um belo dia, meu cadastro foi suspenso. Tentei obter informações, e nada! Você fica maluco: não há telefone para contato no site, os e-mails são respondidos sempre seguindo um critério pré-estabelecido, com textos padrões, e tudo o que conseguia entender que é meu cadastro (em nome de meu filho) fora cancelado porque encontraram “coincidências cadastrais” com outro usuário que aplicara golpes em outros usuários do Mercado Livre, sem me dizer quem, nome, quando, por quê, como…

Com a ausência do giro, deixei de atender clientes que haviam feito compras antes do cancelamento do cadastro. Veio uma chuva de qualificações negativas e minha situação na comunidade do Mercado Livre só piorou. Tive que apelar para a Justiça.

No processo – e somente depois de processados – eu consegui saber quem era o tal do usuário com quem eles alegaram eu ter “coincidências cadastrais”. Investiguei, fiz um levantamento com compradores deste tal usuário, e descobri tratar-se de um sujeito do interior de São Paulo (Ribeiro Preto, se me lembro). Não havia qualquer relação – nem geográfica! – comigo. Nome, documentos, endereço, enfim…

A alegação do Mercado Livre no processo era de que a “coincidência cadastral” era o número do IP (Protocolo de Internet que aponta de onde você está acessando a internet), coisa totalmente ilógica uma vez que à época eu operava com IP dinâmico da Telefonica (Speedy), e o tal do sujeito lá do interior sabe-se lá que conexão usava. Como o assunto é demasiado complexo e técnico para a nossa Justiça ainda tacanha entender, perdi a ação, e não tive saco – nem dinheiro para recorrer. Outra batalha perdida.

Gigante com pés de barro

Com quase 60 milhões de usuários em 13 países da América Latina, movimentando 3,4 bilhões de dólares no ano passado em vendas brutas, dentre as quais se destacam produtos de informática e eletrônicos (cujos usuários vendedores são de difícil fiscalização quanto à procedência e originalidade dos produtos que vendem pela plataforma), o Mercado Livre é e continuará sendo a melhor ferramenta para quem quer começar um negócio de vendas de produtos ou serviços na net. Não tem como se negar isso; e, por isso é que, a cada dia centenas e centenas de novos usuários buscam o conforto de comprar e vender de tudo ou… quase de tudo!

Olhando estes números é que resolvi insistir. Desta vez com cadastro em nome de um outro filho meu e, agora, estando em São Paulo. Recomecei minha histórica com o Mercado Livre vendendo algumas coisas que tinha aqui em casa, e que não me eram úteis mais. Depois retomei as vendas de produtos novos, já que tão perto de fornecedores bons e baratos.

Ágil como quem já vem de ter experiência decenal com vendas pelo Mercado Livre, não demorou a que minhas vendas novamente crescessem. Com já bem perto de conquistas a medalha de “Mercado Líder” novamente, e somando 100% de qualificações positivas, fui surpreendido com um e-mail do Mercado Livre alegando que, dado o volume de minhas vendas, se fazia necessário que eu me transformasse em “pessoa jurídica” e, que, enquanto não providenciasse um CNPJ, meu cadastro estaria bloqueado para vendas.

Declinei. Não tinha e nem tenho interesse em gastar uma fortuna com contador e enfrentar a burocracia do governo para abrir uma firma. Como meu foco agora era os programas “MercadoSócios” e “MercadoPago” do Mercado Livre, não me importei muito. Agora, o importante mesmo era que a propaganda do Mercado Livre que eu estava girando no meu blogue estava me levando a ter uma perspectiva boa de renda através do MercadoSócios, uma vez que meu blogue conta com centenas de visitas diárias, graças a Deus. Também o MercadoPago me interessava por ser um facilitador na intermediação de pagamentos e recebimentos, bastante útil para quem opera na rede mundial de computadores.

E justamente depois de receber e-mails dizendo que bati recorde de faturamento no MercadoSócios por dois meses consecutivos, quando estava me preparando para usar o dinheiro já ganho no MercadoSócios, mas ainda não lançado no MercadoPago, é que sou tomado de assalto com outro e-mail deles dizendo que minha conta fora bloqueada, e todos os pagamentos pendentes cancelados… menos – é claro – a fatura das comissões sobre venda no Mercado Livre que estava por acertar justamente com o faturamento do MercadoSócios.

Novamente fui bloqueado! Brincadeira, né? Será que estou cagado e não me apercebi?

Bem, como era de se prever, não adiantou argumentar. Perdi a guerra. Desisto. Desisto? Não! Ainda me resta uma arma, que é a que estou usando agora, porque disse a eles que dedicarei o que ainda tiver de dias para proclamar por todos os quatro cantos das redes sociais, e através do meu blog, o quanto EU ODEIO O MERCADO LIVRE!

Eles me deram um “tombo” de 300 e poucos reais. Elas sabem que não vou gastar 10 vezes isso com a Justiça para “brigar”. Não vale a pena. E eles sabem que eu não sou mais que apenas MAIS UM idiota e otário que eles descartam em nome de suas políticas draconianas. O que sou eu num universo de quase 60 milhões? Nada. Para eles, sou menos que nada.

Agora, pense comigo: Multiplique 300 reais por mil usuários passando pelo que passei todos os meses… Isso já soma TREZENTOS MIL REAIS! Começa a ser muita grana, não? Para você e para mim seria a aposentadoria, mas para eles mil usuários a mais, mil usuários a menos… que diferença faz? Eles vão continuar crescendo, e pronto!

Sim. Crescerão. Mas não mais com meu apoio. E, se você também já teve o dissabor com o Mercado Livre, de qualquer gênero, também conte a sua história, acompanha a rashtag #EUODEIOOMERCADOLIVRE no Twitter, e entre para esse nosso grupo para também dizer: EU TAMBÉM ODEIO O MERCADO LIVRE!

Washington Luiz de Paula

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