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Para índia, Porto Brasil desuniu Aldeia Piaçaguera em Peruíbe. Mudança era para fazenda de Gilson Bargieri

Bruno Rios, no PortoGente

Após a grande repercussão da entrevista exclusiva do pajé Guaíra publicada na última semana (veja o vídeo aqui), PortoGente continua a mostrar a rotina dos moradores da Aldeia Piaçaguera, em Peruíbe. Agora, o internauta poderá conferir o depoimento da índia Miriam Itamirim, de 29 anos. Ela conta em detalhes como foram os primeiros contatos da empresa LLX com a aldeia e relata passagens curiosas, como o momento em que ela percebeu de que lado da questão estava a maior parte de seus vizinhos. “Vários não querem terra, mas dinheiro para comprar casas na área urbana. Essa história de Porto Brasil nos desuniu”.

PortoGente: Como foi o contato da LLX com vocês sobre o Porto Brasil?

Miriam Itamirim: Os empresários vieram aqui e nós fomos surpreendidos com isso. Eles nos reuniram e fizeram uma proposta, abriram mapas e deixaram a situação em aberto. Depois, sem eles por perto, nos reunimos e consideramos as possibilidades de negar ou aceitar a proposta. Como a Funai demorou muito para regularizar nossa situação, a maioria aceitou o que a LLX propôs.

PortoGente: E quais motivos não fizeram a conversa evoluir para um acordo?

Itamirim: Ao perceber o interesse da LLX pela área da Aldeia Piaçaguera para a construção do Porto Brasil, a Funai resolveu correr e pensar em nós. Mas aí o impasse já estava criado. As famílias mais tradicionais se recusavam a sair daqui, enquanto os outros toparam abandonar a tribo. Os mais velhos perguntaram à Funai qual era a chance dela vencer a batalha e nos fixar aqui, mas não havia como precisar isso.

PortoGente: E você, chegou a aceitar a proposta da LLX para sair da aldeia?

Itamirim: No início, ainda em 2007, eu queria sim sair daqui. Sei que temos uma história a zelar, mas todos os índios que tentaram resistir ao domínio do homem branco acabaram perdendo a batalha. Nunca tivemos o apoio de autoridades e ninguém nos incentivou a correr atrás dos nossos direitos. Ao juntar tudo isso, vimos com bons olhos uma mudança, um recomeço.

PortoGente: Afinal, o que era essa proposta da LLX?

Itamirim: Vamos ao assunto. Eles nos ofereceram uma mudança para a fazenda do ex-prefeito de Peruíbe, Gilson Bargieri. Lá, teríamos a estrutura que nunca tivemos. Só que, com o passar dos meses, percebemos que as promessas eram pura enrolação. Entraram na empresa e na negociação com nós, índios, pessoas que nada tinham a ver com o processo. Fizeram promessas falas e nos iludiram. Foi nesse momento em que mudei de opinião.

PortoGente: Muitas pessoas mudaram de opinião?

Itamirim: Algumas voltaram atrás por dois motivos. A enrolação da LLX e a história da demarcação da terra ter voltado à tona. Mas nossa vida deixou de ser tranqüila. Um outro advogado em nome do empresário Eike Batista veio aqui na aldeia, nos ofereceu carros, dinheiro e não deu motivo para tal. Depois, nos antenamos e ficamos sabendo da história. O Porto de Peruíbe estava divulgado em todo o País e eles precisavam nos convencer a sair daqui rápido. A partir desse momento, um outro homem, dizendo-se da LLX, disse para nós que a empresa tinha comprado tudo e não teríamos chance.

PortoGente: Analisando os fatos oito meses depois, há algo de positivo nisso?

Itamirim: Sim, eu e outros colegas pudemos conhecer a outra face de muita gente. Os verdadeiros interesses de amigos meus da comunidade apareceram, de maneira triste. Enquanto uns querem tudo de cultura, pensam em nosso futuro, outros não se importam com isso e preferem resolver seu lado pessoal. Teve gente que aceitou até dinheiro da LLX para sair da Aldeia Piaçaguera. Até isso acontecer, eu imaginava que todo mundo queria saber de uma nova terra para nós, mas não. Tinha gente querendo morar no centro urbano, com os brancos.

PortoGente: Você chegou a participar das negociações com a empresa?

Itamirim: Sim, mas desisti de liderar esse movimento porque os intermediários que entraram no processo não queriam nosso bem. Apenas nos tirar da terra e facilitar a construção do Porto Brasil. Um dia, foi até engraçado, um antropólogo dizendo-se do Canadá veio na tribo e começou a palpitar sobre o nosso futuro. Eu não entendi nada, mas coisas piores surgiram depois.

PortoGente: Como o quê?

Itamirim: Eu estava animada porque os primeiros representantes da LLX estavam dispostos a nos ouvir, aceitar nossas sugestões e deixar, até mesmo, que criássemos um projeto cultural, alguma coisa do tipo. Eu até digitei e elaborei um amplo projeto de cultura para nós, mas agendaram uma reunião nossa com a empresa fora da aldeia. Alguns iriam falar em nome da comunidade e eu estava nesse meio. Mas, ao entrar no ônibus disponibilizado para nós, ouvi várias indiretas de que os contrários ao porto deveriam ficar quietos. Fiquei tão nervosa que saí e nem fui para a conversa.

PortoGente: Ficou decepcionada com os outros índios?

Itamirim: Sim, mas a raiva passará algum dia. Eu estava certa ao querer mostrar e cobrar algumas coisas da empresa, mas poucos entendiam como eu o que se passava. Acabou que muita gente não fechou com eles e, em uma madrugada, um cara da LLX nos ligou de madrugada, ameaçando e dizendo que deveríamos aceitar a proposta deles de qualquer jeito, e no meio da noite mesmo.

PortoGente: E como vocês resolveram o problema?

Itamirim: Teve gente que saiu batendo de porta em porta perguntando para os vizinhos se eles queriam o porto aqui ou não. A coisa estava sendo feita, de verdade, na calada da noite. Para mim, isso foi o fim, o sinal definitivo de que alguma coisa estava muito errada. O Porto Brasil não saiu do papel, pode se tornar uma coisa imaginária de Peruíbe e só serviu para desunir a comunidade. Sei que não podemos confiar muito na Funai, mas a minha esperança é que eles homologuem logo a terra.

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