sexta-feira , 21 julho 2017
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A história se repete: Durante as chuvas, Peruíbe vive o caos da incompetência

O que o povo de Peruíbe está sofrendo nestes dias sofre todos os anos. Seja com Milena, com o pai dela, com Alberto, com Mário Omuro, com Sodré, com Popescu… É, portanto, perfeitamente previsível. E, porque previsível, acontece para escancarar ou a incompetência com que nossos governantes – todos! – gerem a cidade, ou porque, mesmo sabendo o caminho para se resolver o problema das enchentes em tempos de chuva, preferem brincar com o sofrimento alheio.

As águas que caem dos céus de dezembro a março em Peruíbe não poupam nem mesmo os ricaços dos Boungainvilles I e II. Em certos trechos da Avenida Padre Anchieta, simplesmente não há como se passar, como no baixio desde a Imobiliária Toninho Góes até o Restaurante Alpendre, alcançando a imobiliária do ex-vereador, ex-presidente da Câmara, ex-vice-prefeito de Gilson e de Sodré, José Carlos Rúbia de Barros, o Carlinhos. O próprio Restaurante Alpendre, onde, em dias como estes só se vai comer a nado ou de barco pertence – ou já pertenceu – a um dos poderosos da atual administração, David da Silva Maia Neto, também ex-vereador. E, nos luxuosos condomínios fechados (que fecham e dividem a cidade), moram o plenipotenciário Gilson Bargieri e sua filha, atual alcaide. Ambos os dois também têm dificuldades para chegar em casa, já que a Avenida Beira Mar (é menos complexo chamar a avenida da orla assim do que Avenida Governador Mário Covas Júnior), fica também instransitável.

O antigo canal da Ubatuba só tem de antigo o nome. Hoje Avenida (ou rua) dos Expedicionários, o canal, que vem por galerias desde o Ribamar até o Stella Maris, e da Avenida Padre Leonardo Nunes até o Rio Preto em forma de canal mesmo (quase um rio dentro da cidade) atinge em cheio o centro administrativo da cidade, e prefeitura e câmara (e, amanhã, o fórum), e até mesmo a delegacia mais adiante, ficam ilhados.

De certos trechos da Padre Anchieta, pode-se olhar a inclinação que leva à praia de um lado, e que leva em direção à linha do trem: são duas corredeiras de águas intermináveis.

Em resumo: se correr a água pega; e ficar, a água faz adernar.

E o que dizer do Jardim das Flores? E do Caraguava? E da Vila Peruíbe? E da estrada do Guaraú? E do Jardim Veneza?

Detenho-me ao Jardim das Flores onde nada lá são flores, mas que é o suprassumo de tudo que há de exemplo que se possa dar de descaso ou incompetência em termos de gestão pública. A começar da escolha do terreno que, não bastasse ser uma baixada, é margeado pelo Rio Preto quando ele teima abraçar a cidade. Talvez fosse melhor assim, sabe-se lá… Até porque, tivesse sido construído num terreno alto, e viesse um tufão daqueles que costuma castigar o litoral catarinense, aqueles casebres seriam levados aos céus, com tudo que tem dentro (inclusive as pessoas). Seria uma catástrofe. Para que se tenha uma ideia da vulnerabilidade daquelas construções, os subempreiteiros que construíram a casas (casas?) não ganharam mais que mil reais para levantar cada uma delas desde o alicerce até o respaldo do telhado (e com o “acabamento” e tudo!). Agora, vão lá olhar as planilhas de custo da obra, e vejam quantos os mutuários do Jardim das Flores estão pagando, e o quanto foi liberado de verba do governo para aquele bairro, e pensem no quanto foi roubado – e está sendo roubado – do bolso do contribuinte. É um acinte!

Tudo isso para quê? Para hoje você que é morador do Jardim das Flores ver tudo aquilo que você comprou durante o ano se perder numa enchente, e ainda ir numa entrevista de TV para dizer que… “fazer o quê?, a gente mora perto do mar…”, como se o êxtase de se morar “perto” do mar compensasse prejuízos e mais prejuízos por culpa – não do mar! – mas dos agentes públicos ou despreparados ou corruptos.

Pois é. Até nisso Peruíbe piorou ao longo das últimas três ou quatro décadas. Até as enchentes antigamente tinham um ar mais romântico, mais caiçara, e elas ficavam restritas quase que exclusivamente ao Jardim Veneza (que, aliás, tem esse nome, justamente por causa das cheias, numa comparação um tanto sem graça com a Veneza italiana).

Lembro-me do ex-vereador e ex-diretor de Defesa Social, Coronel José Ignácio Monte Oliva Filho, indo à Tribuna da Câmara para, entre lágrimas não contidas, relatar a desgraça que vira durante os dias de enchentes enfrentados pelo então prefeito Mário Omuro durante sua gestão (1989-1992). E mais recentemente, sua esposa, Julieta Omuro, quase foi apedrejada em praça pública pela oligarquia da cidade porque, enquanto prefeita, decretou “estado de calamidade pública” na cidade diante do que viu de desgraça atingindo a periferia do município, em 2008. E se, por conta disso não foi apedrejada na praça, o foi nas urnas, perdendo as eleições daquele ano justamente porque se atrevera a defender os pobres e oprimidos, governando para estes exatamente como fizera seu marido 20 anos atrás. Milena e Gilson (filha e pai), Gilson e Milena (pai e filha) não pouparam esforços para criticar sordidamente Julieta pelo seu ato, e o fizeram dos palanques eleitorais, mesmo Gilson Bargieri tendo sido prefeito (2001-2004) e tendo sentido na pele as “negras aflições dos problemas sociais”, no dizer do falecido poeta Gióia Júnior.

Mas, e agora, José? Não, não o José Roberto Preto; é o “José” de Drummond: “E agora, José? / A festa acabou, / a luz apagou, / o povo sumiu, / a noite esfriou, / e agora, José? / e agora, você? / você que é sem nome, / que zomba dos outros, / você que faz versos, / que ama, protesta? / e agora, José?.”

José Milena, José Gilson, José Alex Matos, José Ferreirinha, José David Maia, José Neto, José quem mais que seja que componha a casta dominante (e mandatária) da cidade hoje (por acaso são vocês hoje; amanhã, quiçá, serão outros), mostrem vocês que têm um mínimo de amor pela cidade e de respeito pelo seu povo, e façam alguma coisa para minorar este mal que, como disse, não é de hoje, não é necessariamente culpa de vocês, mas que também não é só necessariamente culpa da natureza, do rio, da ressaca, das chuvas torrenciais que não param, de São Pedro, enfim.

O desassoreamento (e limpeza) dos rios que “abraçam” a cidade, se bem me lembre, não é feito há décadas. Asfaltos são feitos “para inglês ver” e para gáudio de alguns veneráveis amigos da Administração, sem um mínimo de preocupação com sistemas que permitam o escoamento de águas pluviais; árvores são cortadas (já tratei desse tema aqui) impiedosamente por toda a cidade; os mangues são invadidos por favelas e por construções “oficiais” (o prédio onde funciona o Ciretran hoje não muito tempo atrás era mangue); a areia da praia continua sendo roubada à luz do dia e até por caminhões e máquinas que não são da prefeitura; e, nas ruas estreitas e irregulares de bairros invadidos por posseiros com seus casebres e favelas faz-se asfalto para poupar que os pés pisem na lama na rua, mas que, em tempos como esse, jogam a lama das ruas para dentro das casas!

A mão justa da mãe Natureza, ao mesmo tempo em que ama, é cruel. E somos abençoados porque tudo isso que vem acontecendo não é mais que aviso que deve ser medido por todos.

Um dia logo após o Natal de 2004, milionários do mundo todo curtiam suas férias nas paradisíacas ilhas do Índico, na Indonésia e países adjacentes. Um violento terremoto chegou sem aviso e fez levantar ondas de até 50 metros (da altura do prédio Serra dos Itatins!) em toda costa do Índico na Ásia e também a costa leste da África: pelo menos 280 mil pessoas morreram (quase a população de seis cidades de Peruibe!), e, diante da tragédia, de nada adiantou ser pobre, rico, preto, branco, amarelo: a Natureza foi simplesmente implacável.

No início deste ano, aqui mais perto de nós, na região Serrana do Rio de Janeiro, cerca de mil pessoas morreram (os números ainda não estão conclusos), também por conta do descaso e da incompetência dos gestores públicos que não souberam administrar e respeitar os avisos da Natureza. Famílias inteiras de milionários foram ceifadas também.

Logo, disso tudo se deduz que quando a desgraça resolve alcançar também o rico, de nada vale todo o dinheiro que amealhou, todos os bens que juntou, honestamente ou não. Vai tudo literalmente para o ralo. E para o esgoto.

Pelo menos sonhemos com um dia em que não será mais preciso ver voluntários de barco socorrendo senhoras e crianças para que não pereçam afogados, mas que suas voluntariedades sejam usadas para mostrar que é possível sim fazer de Peruíbe uma cidade melhor; ao menos um pouco melhor.

Washington Luiz de Paula

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